Seca ajuda, fogo ameaça

A colheita do algodão ganhou velocidade em Mato Grosso nas últimas semanas e já alcançou 72,3% da área cultivada, segundo o levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O índice coloca o Estado à frente do ritmo registrado no mesmo período do ciclo anterior e confirma a força da produção mato-grossense na safra 2025/26.
No Brasil, 70,5% da área de algodão já havia sido colhida até a última sexta-feira (21), avanço de 10,9 pontos percentuais em apenas uma semana. No mesmo período de 2025, a colheita estava em 60,3%. A média dos últimos cinco anos, entretanto, é de 74,7%, o que significa que o país ainda está ligeiramente abaixo do ritmo histórico.
Mato Grosso acompanha esse avanço com condições consideradas favoráveis para a retirada da fibra. Segundo a Conab, os dias quentes e o tempo mais seco ajudaram as operações no campo, permitindo que as máquinas avançassem nas áreas prontas para colheita.
O resultado que começa a aparecer também anima os produtores. As produtividades aferidas até agora no Estado estão acima das registradas na safra anterior, segundo a Conab, embora os números finais ainda dependam da conclusão dos trabalhos e da consolidação dos dados de toda a temporada.
Mato Grosso é o principal produtor brasileiro da fibra. Em uma estimativa anterior do IBGE, o Estado respondia por cerca de 72,7% da produção nacional de algodão herbáceo projetada para 2026, com expectativa de aproximadamente 6,4 milhões de toneladas de algodão em caroço.
A importância do Estado também aparece na estrutura da segunda safra brasileira. O algodão é cultivado em grande escala em Mato Grosso, com a colheita concentrada justamente neste período do ano, quando as condições mais secas ajudam a retirar a fibra do campo com menor risco de perda pela chuva.
Mas o tempo seco que facilita a colheita também traz outro problema: o risco de incêndios aumenta.
A previsão agrometeorológica da Conab para o período de 24 a 31 de agosto indica predominância de condições secas e estáveis no Centro-Oeste. Para Mato Grosso, a tendência é de pouca chuva em grande parte do território, embora haja possibilidade de pancadas isoladas principalmente no início do período em algumas áreas do norte do Estado. A partir do dia 28, o tempo seco deve voltar a predominar.
Para quem está no campo, isso significa uma janela favorável para trabalhar, mas também exige atenção redobrada com queimadas e focos de incêndio, principalmente em áreas de vegetação seca próximas às lavouras.
O manejo da cultura também continua exigindo cuidado mesmo depois da passagem das máquinas. Em Mato Grosso, a Conab destaca o trabalho de controle do bicudo-do-algodoeiro, uma das principais pragas da cotonicultura, além da necessidade de realizar a destruição imediata das soqueiras após a colheita.
A retirada adequada dos restos da planta é importante para reduzir a sobrevivência e a reprodução do bicudo e evitar que a praga encontre abrigo entre uma safra e outra.
O avanço de Mato Grosso acompanha uma reta final que já começou em vários dos principais estados produtores.
O Maranhão aparece com 96% da área colhida, enquanto Mato Grosso do Sul chegou a 93%. O Piauí está em 87%, Goiás alcançou 84%, Minas Gerais chegou a 65% e a Bahia estava em 59%. Em São Paulo, a colheita já foi encerrada.
No Maranhão, a primeira safra deve ser finalizada até o fim de agosto na região dos Gerais de Balsas, enquanto a segunda safra também está chegando ao fim. As áreas que permanecem no campo estão principalmente em fase de maturação.
Em Mato Grosso do Sul, a situação também é de reta final. As regiões norte e nordeste praticamente encerraram a colheita, enquanto os trabalhos continuam na região central, com previsão de conclusão no começo de setembro. A destruição das soqueiras segue paralelamente.
Em Goiás, além do bom andamento da colheita, a qualidade da pluma é considerada boa nas áreas já trabalhadas, segundo a Conab.
No Piauí, a produtividade aferida vem superando as estimativas iniciais, enquanto Minas Gerais também aproveita o clima mais seco, com temperaturas amenas e pouca chuva, para acelerar as máquinas.
Na Bahia, segundo maior produtor nacional, a colheita continua avançando.
A previsão da Conab mostra que o tempo seco não interfere apenas no algodão. No Centro-Oeste, as condições previstas para os próximos dias também são consideradas favoráveis à maturação e à colheita do milho segunda safra e dos cultivos de inverno.
O milho, aliás, está ainda mais avançado em algumas regiões. Até 21 de agosto, a colheita da segunda safra brasileira havia alcançado 90,4% da área, enquanto Mato Grosso, junto com Piauí, Tocantins e Maranhão, já havia encerrado os trabalhos.
Isso ajuda a explicar o movimento intenso de máquinas no campo neste período. A janela entre o fim da colheita do milho e o avanço do algodão concentra operações agrícolas importantes no Estado.
Enquanto o Centro-Oeste aproveita o tempo mais seco para acelerar as máquinas, outras regiões enfrentam condições diferentes.
No Nordeste, a previsão indica chuvas principalmente na faixa litorânea, enquanto o interior e o Agreste continuam com restrição hídrica. No Sealba, área formada por Sergipe, Alagoas e Bahia, culturas como feijão e milho terceira safra ainda em floração ou enchimento de grãos permanecem dependentes de melhores condições de umidade.
No Sul, a situação é praticamente oposta. A previsão indica avanço de áreas de instabilidade e possibilidade de chuva mais volumosa principalmente no Rio Grande do Sul e em partes de Santa Catarina, com acumulados diários superiores a 50 milímetros em algumas áreas e possibilidade de danos pontuais às lavouras.
A diferença mostra como o clima continua sendo um dos principais fatores para determinar o ritmo das operações agrícolas no país.
O algodão também faz parte de uma temporada de grãos que segue com perspectiva positiva. No 11º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, divulgado pela Conab em 13 de agosto, a produção brasileira de grãos foi estimada em 360,8 milhões de toneladas, alta de 2,4% em relação ao ciclo anterior.
Para o algodão, o mesmo levantamento projetava aproximadamente 5,8 milhões de toneladas de algodão em caroço, equivalentes a cerca de 4,1 milhões de toneladas de pluma. A Conab avaliava que as condições climáticas, de modo geral, haviam favorecido o desenvolvimento da cultura.
A produtividade acima da safra anterior observada nas áreas já colhidas em Mato Grosso pode ajudar a reforçar esse cenário, embora os resultados finais ainda dependam da conclusão da colheita e da consolidação dos números.
O momento, portanto, é de aceleração no campo. O algodão está saindo da lavoura em ritmo forte, Mato Grosso já passou da marca de 70% e os primeiros rendimentos indicam um desempenho melhor que o da temporada passada.
Agora, enquanto as máquinas avançam, produtores precisam manter atenção ao que fica para trás: destruir as soqueiras, controlar o bicudo e evitar que o tempo seco transforme uma boa janela de colheita em problema com fogo.
No algodão, o recado é quase contraditório: quanto mais seca a lavoura, melhor para a colheitadeira, mas maior precisa ser o cuidado com o fogo.