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Guerra dentro do PL

Medeiros corta melancia na TV e manda recado a Wellington no primeiro dia de propaganda eleitoral em MT

O primeiro dia de propaganda eleitoral gratuita em Mato Grosso começou com uma provocação dentro do próprio Partido Liberal. Em uma inserção exibida nesta sexta-feira (28), o deputado federal e candidato ao Senado José Medeiros (PL) apareceu diante das câmeras segurando uma melancia, cortou a fruta e transformou o gesto em uma mensagem política.

“Mato Grosso é o maior produtor de soja do mundo. Mas quando começa a eleição, o que mais brota por aqui é melancia”, afirmou.

Embora não tenha citado Wellington Fagundes pelo nome, a propaganda foi interpretada nos bastidores como uma indireta ao senador e candidato do PL ao Governo de Mato Grosso. A expressão “melancia” é utilizada por setores da direita para classificar políticos que seriam verdes por fora e vermelhos por dentro, numa referência a pessoas que adotam uma imagem conservadora, mas mantêm posições ou alianças consideradas próximas da esquerda.

Medeiros ainda elevou o tom ao dizer que alguns candidatos estariam buscando Brasília para “defender a esquerda”, “passar pano para Alexandre de Moraes”, defender o aborto e a criminalidade.

No encerramento, veio a provocação mais direta:

“Melancia é bom pra se comer, mas na hora de votar, não dá certo não.”

A fruta tem endereço político

A escolha da melancia não surgiu por acaso.

Wellington Fagundes vem sendo chamado de “melancia” por setores do eleitorado bolsonarista em razão de seu histórico de alianças e posições políticas ao longo da carreira. A alcunha ganhou ainda mais força dentro do PL mato-grossense após a aproximação do partido com grupos políticos que Medeiros e outros integrantes da ala mais ideológica da legenda consideram distantes da direita.

O senador, por sua vez, é atualmente o candidato oficial do PL ao Governo de Mato Grosso.

Medeiros também disputa a eleição pelo mesmo partido, mas para uma das duas vagas ao Senado.

É justamente essa coincidência que torna a peça publicitária mais significativa: um candidato do PL ao Senado utiliza o horário eleitoral para criticar uma característica atribuída a outro candidato do próprio partido.

A propaganda ocorre em meio a um racha que já vinha sendo percebido dentro da legenda.

Janaina Riva está no centro da crise

Parte do desconforto de Medeiros está relacionada à composição política construída por Wellington Fagundes.

Um dos principais pontos de tensão foi a aproximação com a deputada estadual Janaina Riva (MDB), que passou a integrar o arco político ligado à candidatura de Wellington.

Para setores mais ideológicos do PL, a aliança representa uma aproximação com o centro político que contrasta com o discurso de direita defendido por Medeiros.

A melancia, portanto, funciona como uma espécie de senha ideológica.

O deputado não precisa dizer o nome do adversário para que seu público reconheça a mensagem.

Racha ficou ainda mais evidente com Cláudio Ferreira

A propaganda foi ao ar poucas horas depois de outro episódio envolvendo o PL.

Na quinta-feira (27), o prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira (PL), declarou apoio à reeleição de Otaviano Pivetta (Republicanos), justamente adversário de Wellington na disputa pelo Governo.

Cláudio afirmou que sabia que poderia sofrer consequências pela decisão.

“Meu candidato a governador é Otaviano Pivetta. E eu sei, meus amigos, que eu vou pagar um preço porque ele não faz parte do meu partido”, declarou.

O preço começou a aparecer já no dia seguinte.

Nesta sexta-feira, o presidente estadual do PL, Ananias Filho, confirmou a destituição de Cláudio da presidência do diretório municipal do partido em Rondonópolis e disse que o prefeito será convidado a deixar a legenda. Caso permaneça, poderá enfrentar um processo disciplinar que pode resultar em expulsão.

O episódio adicionou ainda mais tensão ao ambiente interno do partido.

Medeiros também estava no palanque de Pivetta

O detalhe que deixa a situação ainda mais curiosa é que José Medeiros também esteve no evento em que Cláudio declarou apoio a Pivetta.

Segundo informações divulgadas sobre o encontro, Cláudio pediu votos para Pivetta ao Governo e para Mauro Mendes e José Medeiros ao Senado.

Ou seja, enquanto Cláudio rompeu publicamente com a orientação do partido na disputa para governador, Medeiros aparece em uma posição diferente: continua candidato pelo PL ao Senado, mas também mantém forte discurso contra setores da própria composição política da legenda.

Propaganda transforma briga interna em imagem

A escolha de Medeiros é essencialmente visual.

Em vez de fazer um longo discurso explicando as diferenças entre os candidatos, ele simplesmente aparece com uma melancia, corta a fruta e constrói o restante da mensagem em torno do símbolo.

É uma estratégia de comunicação eleitoral bastante direta.

A propaganda começa falando de soja, produto que remete ao agronegócio e à identidade econômica de Mato Grosso, e imediatamente contrapõe a produção agrícola ao crescimento das “melancias” durante o período eleitoral.

A mensagem é direcionada principalmente ao eleitorado de direita que acompanha a disputa e conhece o significado político da expressão.

“Não dá certo na hora de votar”

O encerramento da peça deixa evidente que Medeiros não está fazendo uma crítica gastronômica.

Depois de cortar a fruta, ele diz que melancia é boa para comer, mas não para escolher nas urnas.

A crítica é uma tentativa de transformar uma acusação política em uma escolha eleitoral:

se o candidato parece de direita, mas possui posições ou alianças que Medeiros considera incompatíveis com esse campo, o eleitor deveria rejeitá-lo.

A inserção, portanto, funciona tanto como apresentação da própria candidatura quanto como ataque indireto aos adversários.

Wellington não foi citado nominalmente

Apesar da interpretação política, é importante registrar uma diferença entre o que Medeiros disse e como a propaganda foi interpretada.

O deputado não pronunciou o nome de Wellington Fagundes durante a inserção.

A associação ocorre por causa do significado da expressão “melancia” no ambiente político mato-grossense e pelas críticas anteriores de Medeiros à composição da chapa de Wellington.

Por isso, a propaganda pode ser lida como uma indireta, mas o alvo não foi nominalmente identificado no vídeo.

Disputa começa com fogo amigo

O cenário deixa uma situação pouco comum para o primeiro dia de horário eleitoral.

O PL possui candidatos próprios ao Senado e ao Governo, mas as diferenças entre os grupos internos estão aparecendo publicamente.

De um lado, Wellington busca consolidar sua candidatura ao Palácio Paiaguás.

De outro, Medeiros utiliza sua própria propaganda para estabelecer uma linha ideológica e criticar políticos que considera pouco confiáveis para o eleitor de direita.

Ao mesmo tempo, prefeitos do partido, como Cláudio Ferreira, já anunciaram apoio a Pivetta.

A direção estadual, por sua vez, começou a aplicar consequências internas contra quem contrariar a estratégia definida pela legenda.

Justiça também entrou na história da melancia

A fruta acabou ganhando ainda outro capítulo nesta sexta-feira.

Uma publicação patrocinada de Otaviano Pivetta também utilizou uma melancia para provocar Wellington Fagundes com referência ao desempenho dos candidatos em pesquisas eleitorais.

A coligação de Wellington pediu à Justiça Eleitoral que retirasse o conteúdo do ar, mas o pedido foi negado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso.

Assim, em poucas horas, a melancia apareceu em diferentes lados da disputa:

na propaganda de Medeiros como símbolo de crítica ideológica;

na comunicação de Pivetta como provocação eleitoral;

e nos bastidores como uma das principais alcunhas utilizadas contra Wellington.

A fruta, que normalmente seria apenas fruta, ganhou uma função bem mais importante no marketing da eleição.

A guerra eleitoral começou

O horário eleitoral gratuito começou oficialmente em 28 de agosto e seguirá até 1º de outubro, antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.

Com a televisão e o rádio oficialmente incorporados à campanha, os candidatos passam a ter mais espaço para apresentar propostas, atacar adversários e construir suas imagens perante o eleitor.

No caso de Medeiros, a estreia já deixou claro qual será uma das linhas de sua campanha:

marcar distância de qualquer candidato que ele considere pouco alinhado à direita.

E para fazer isso, bastou uma faca e uma melancia.

 

Veja o vídeo:

MT24H