dinheiro sob lupa

O Banco Master pagou cerca de R$ 33 milhões, em 2024, ao escritório da advogada Dalide Barbosa Alves Corrêa, segundo documentos de uma auditoria interna do Banco Regional de Brasília (BRB) encontrados pela Polícia Federal durante as investigações sobre as operações envolvendo as duas instituições. O pagamento colocou a advogada entre os principais destinatários dos gastos jurídicos do banco naquele ano.
O caso ganhou atenção porque Dalide teve uma trajetória profissional ligada ao Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), instituição fundada por Gilmar Mendes. Ela assumiu a direção-geral do instituto em 2010 e permaneceu no cargo por sete anos, até 2017. Os dois se conheceram quando Mendes era advogado-geral da União e Dalide trabalhava na Caixa Econômica Federal. Depois da saída dela do IDP, segundo relatos atribuídos ao ministro, ambos se afastaram.
A documentação analisada pela PF também aponta que executivos do Master discutiam internamente o pagamento ao escritório Alves Corrêa & Veríssimo Advocacia. Em uma dessas conversas, o diretor financeiro do banco, Ângelo Ribeiro, orientou o pagamento e justificou a relação dizendo que se tratava de um “canal direto com o STF”. O material, porém, não esclarece o que os executivos queriam dizer com a expressão.
Até o momento, não foram identificadas nessas conversas menções a Gilmar Mendes ou a qualquer outro ministro do Supremo relacionadas ao pagamento. A reportagem da Agência Estado também informa que a PF ainda não havia realizado diligências específicas sobre esse contrato e, portanto, não havia produzido uma conclusão sobre a legalidade dos serviços prestados pelo escritório. Gilmar Mendes não se manifestou oficialmente sobre o caso.
A própria Dalide Corrêa negou ter atuado para o Banco Master no STF. Em nota enviada ao Estadão, sua assessoria afirmou que o escritório jamais procurou ministros da Corte para tratar de assuntos do banco e que os serviços prestados ficaram restritos a processos judiciais que já eram conduzidos em favor de empresas que venderam créditos ao Master e posteriormente foram sucedidas pela instituição. Segundo a defesa, esses processos tramitaram apenas em primeira e segunda instâncias.
Os valores chamaram atenção porque os gastos do Banco Master com escritórios de advocacia cresceram de R$ 76 milhões em 2023 para R$ 215 milhões em 2024, segundo a auditoria analisada pela PF. O documento aponta que, naquele ano, R$ 40 milhões foram destinados ao escritório Barci de Moraes, ligado à advogada Viviane Barci de Moraes, e outros R$ 33 milhões ao escritório de Dalide Corrêa.

Aos 67 anos, Dalide é formada em Direito pelo Centro Universitário de Brasília e possui especializações em Direito Tributário, Constitucional e Processo Civil. Antes de chegar ao IDP, foi diretora jurídica da Caixa Econômica Federal, trabalhou como assessora jurídica da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, foi procuradora-geral da Anac e ocupou função de chefia de assessoria parlamentar no STF.
Em 2010, além de assumir a direção-geral do IDP, ela abriu em Brasília o escritório Alves Corrêa & Veríssimo Advocacia, no qual atua como sócia-administradora. Documentos institucionais do próprio IDP e registros públicos confirmam que Dalide ocupava a direção-geral da instituição em 2016 e 2017.
A advogada também entrou na política eleitoral. Em 2022, foi primeira suplente de João Campos (Republicanos) na disputa pelo Senado em Goiás e declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de aproximadamente R$ 88,5 milhões, distribuído em 24 bens. A chapa não foi eleita.
A descoberta dos pagamentos acontece em meio à investigação da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e operações financeiras com o BRB. Documentos e mensagens já revelaram relações profissionais e financeiras de Vorcaro com diferentes pessoas ligadas ao meio jurídico e ao entorno do STF.
No caso de Dalide, contudo, a documentação disponível até agora estabelece o pagamento de R$ 33 milhões ao escritório e a referência feita por executivos do Master ao suposto “canal direto com o STF”, mas não comprova, por si só, que o dinheiro tenha sido destinado a algum ministro ou que tenha havido interferência em decisões da Corte. A própria PF ainda não havia concluído a análise da prestação dos serviços.
A investigação deverá esclarecer qual foi exatamente o serviço contratado, por que os honorários atingiram esse patamar e o que os executivos do Banco Master pretendiam dizer ao classificar o escritório como um “canal direto com o STF”.