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O fantasma de Emanuel

Abilio diz que próximo presidente pode pegar “Brasil quebrado” e compara Lula a Emanuel

O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), entrou no debate eleitoral nacional ao fazer uma previsão pouco otimista para quem vencer a disputa pela Presidência da República em outubro. Segundo ele, o próximo presidente encontrará um cenário fiscal difícil e terá de enfrentar problemas semelhantes aos que, na avaliação dele, foram deixados pela gestão do ex-prefeito de Cuiabá Emanuel Pinheiro (MDB).

A declaração ocorreu durante entrevista à imprensa nesta semana, quando Abilio foi questionado sobre o cenário eleitoral e as pesquisas que mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente na corrida presidencial.

Aliado de Flávio Bolsonaro (PL), que disputa a Presidência, Abilio afirmou que qualquer um dos candidatos enfrentará dificuldades ao assumir o governo federal em 2027. Na avaliação dele, porém, um eventual novo mandato de Lula deixaria uma situação ainda mais complicada para o sucessor.

“Infelizmente, qualquer um que seja o próximo governante vai enfrentar dificuldades no início do seu mandato. Se for o Lula, a gente vai sofrer muito, muito. Se for o Flávio, a gente vai sofrer menos, mas vai ter dificuldade para qualquer um que for o próximo presidente”, afirmou.

O prefeito usou como referência a própria experiência ao assumir a Prefeitura de Cuiabá. Segundo ele, quando chegou ao cargo, encontrou uma administração com problemas financeiros e passou a trabalhar na reorganização das contas municipais.

Na comparação feita por Abilio, o problema estaria justamente no que um governante deixa para quem vem depois. Ele citou o segundo mandato de Emanuel Pinheiro, iniciado em 2021, e afirmou que o ex-prefeito teria reduzido a preocupação com a situação financeira depois de conseguir a reeleição.

“Eu temo pelo governo brasileiro, que, se nós estivermos na mão de um governo como o do Lula, que não vai estar mais preocupado com reeleição, que não vai estar mais preocupado com nada, é que nem o mandato 2 do Emanuel”, disse.

Abilio também afirmou que Cuiabá estaria, segundo sua avaliação, passando por um processo de recuperação financeira enquanto o governo federal estaria caminhando na direção oposta.

“Hoje a gestão está mais equilibrada, as coisas estão mais acertadas, Cuiabá já está se recuperando das dificuldades que tem, e o Brasil está cada dia mais afundando com o Governo Federal”, declarou.

A fala faz parte do discurso político de Abilio e mistura sua avaliação sobre a administração municipal com uma projeção para o cenário federal. A situação fiscal do país, entretanto, possui indicadores objetivos que ajudam a dimensionar o problema.

Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que inclui as dívidas do governo federal, dos estados e dos municípios, chegou a R$ 10,8 trilhões em junho de 2026, equivalente a 81,9% do PIB. O indicador também inclui o INSS e não representa exclusivamente a dívida do governo Lula ou apenas do governo federal.

É justamente nesse ponto que houve uma correção importante na fala de Abilio. O prefeito mencionou uma dívida de aproximadamente R$ 10 trilhões ao falar da situação brasileira, mas esse valor não corresponde apenas a uma “dívida de curto prazo” do governo federal. Trata-se de uma referência próxima ao estoque da Dívida Bruta do Governo Geral, uma medida mais ampla que reúne União, estados e municípios.

O Banco Central registrou ainda que a DBGG aumentou 0,9 ponto percentual do PIB em junho, influenciada principalmente pelos juros nominais, pelas emissões líquidas de dívida e por outros fatores de ajuste.

Ao falar sobre o futuro da economia, Abilio também citou a possibilidade de déficit nas contas públicas e impactos sobre o agronegócio, especialmente diante de condições climáticas que poderiam afetar a produção.

A preocupação com as contas públicas, aliás, está no centro da própria disputa presidencial. O plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê medidas como redução de despesas, revisão de gastos, criação de um novo teto de gastos e mudanças na estrutura administrativa.

Na outra ponta do debate, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou recentemente que o governo trabalha com a possibilidade de um ajuste fiscal de aproximadamente 2% do PIB em um eventual próximo mandato de Lula e defendeu mudanças em despesas obrigatórias e manutenção do atual arcabouço fiscal, além de criticar propostas apresentadas pela campanha de Flávio.

Essas posições mostram que a discussão sobre o tamanho do déficit e da dívida não está restrita ao discurso de Abilio. O que muda é a interpretação sobre como enfrentar o problema.

Em sua fala, o prefeito também relacionou a situação fiscal ao cenário do agronegócio. Segundo ele, um período de menor oferta e dificuldades climáticas poderia pressionar ainda mais a economia.

Abilio afirmou que o próximo governo terá de lidar com um período de “escassez” e que o cenário exigirá decisões difíceis, independentemente de quem vencer a eleição.

“Ano que vem nós teremos um ano de escassez”, afirmou.

O prefeito ainda comparou um eventual segundo mandato consecutivo de Lula à segunda gestão de Emanuel em Cuiabá. Segundo Abilio, depois da reeleição, o ex-prefeito teria deixado problemas para o sucessor.

“Depois que ele se reelegeu, ele abandonou a cidade, ele arrumou e a gente se ferrou. Isso pode acontecer com o Governo Federal”, afirmou.

A comparação também tem um componente claramente político. Abilio e Emanuel são adversários na política cuiabana, e a situação financeira encontrada pela atual administração já foi motivo de críticas e acusações entre os dois grupos.

No cenário nacional, Abilio vem se posicionando publicamente ao lado de Flávio Bolsonaro. O senador iniciou sua campanha presidencial neste mês e apresenta como uma das principais bandeiras a reorganização das contas públicas. Entre as propostas divulgadas estão cortes de despesas, redução do número de ministérios, revisão de benefícios e mudanças no modelo fiscal.

Ao mesmo tempo, Lula segue defendendo a continuidade de seu governo e deve fazer da recuperação econômica, geração de empregos e manutenção de políticas sociais alguns dos principais pontos de sua campanha.

A declaração de Abilio, portanto, coloca Cuiabá no meio da disputa nacional e recupera uma velha comparação da política local: o que um governante recebe e o que entrega ao próximo.

Mas existe uma diferença importante entre os dois casos. A dívida pública federal é muito maior e possui composição completamente diferente das contas de uma prefeitura. A DBGG do Banco Central, por exemplo, reúne União, estados e municípios, enquanto a situação financeira de Cuiabá precisa ser analisada exclusivamente dentro das contas municipais.

Por isso, a fala do prefeito deve ser entendida como uma avaliação política sobre o cenário que ele espera para 2027, enquanto os números oficiais do Banco Central mostram a dimensão atual do endividamento público.

No fim, a previsão de Abilio é direta: quem sentar na cadeira presidencial em 2027 terá bastante trabalho para colocar as contas em ordem. E, para reforçar o argumento, ele puxou para Brasília o fantasma que conhece bem da política de Cuiabá: Emanuel Pinheiro.