
Campo Verde, em Mato Grosso, confirmou nove casos de dengue causados pelo sorotipo DENV-3, uma das quatro formas conhecidas do vírus da dengue. Segundo a Vigilância em Saúde do município, esta é a primeira vez que o sorotipo é identificado na cidade.
Apesar da confirmação, nenhum dos pacientes está internado ou apresenta quadro grave até o momento. A situação, porém, levou o município a reforçar as ações de combate ao Aedes aegypti, responsável pela transmissão da dengue, além de chikungunya e zika.
A ocorrência chama atenção porque o DENV-3 passou anos com circulação muito baixa no Brasil e voltou a ganhar espaço a partir de 2023. Um estudo do Instituto Butantan apontou que a reemergência registrada entre 2023 e 2024 esteve ligada a múltiplas introduções internacionais, com circulação identificada inicialmente em estados como Roraima, São Paulo, Minas Gerais e Pará.
Mas o que exatamente muda quando aparece o tipo 3?
O DENV-3 não é uma doença diferente das outras formas de dengue. Ele é simplesmente um dos quatro sorotipos do vírus, ao lado dos tipos 1, 2 e 4. A pessoa que já teve dengue por um sorotipo desenvolve imunidade principalmente contra aquele tipo, mas pode voltar a ser infectada por outro.
O ponto de atenção está justamente nas reinfecções.
Segundo o Ministério da Saúde, pessoas que já tiveram dengue anteriormente podem apresentar maior risco de complicações em uma nova infecção, especialmente quando o segundo episódio envolve outro sorotipo. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com determinadas doenças crônicas também estão entre os grupos com maior risco de evolução grave.
Isso não significa que a dengue tipo 3 seja automaticamente mais perigosa para todos. O Governo de São Paulo, por exemplo, destaca que o DENV-3 não é, por si só, considerado um sorotipo mais grave; a preocupação maior está relacionada ao contexto de uma segunda infecção.
O retorno do DENV-3 não ficou restrito a Mato Grosso.
O sorotipo voltou a ser identificado no Brasil em 2023, inicialmente com registros em Roraima e posteriormente em outros estados. Em 2024, o número de registros de DENV-3 aumentou, especialmente nas regiões Norte e Sudeste.
Em 2025, São Paulo voltou a registrar circulação do sorotipo depois de anos de baixa presença, enquanto o Rio de Janeiro confirmou casos do DENV-3 após um longo período sem circulação predominante do tipo no estado.
Em Pernambuco, o cenário chegou a chamar ainda mais atenção em 2026. Um levantamento divulgado pela vigilância estadual apontou predominância do DENV-3 entre os casos de dengue registrados no início da sazonalidade das arboviroses.
Ou seja: a presença do sorotipo em Campo Verde faz parte de um cenário mais amplo de reemergência do DENV-3 no país.
A dengue tipo 3 provoca, em geral, os mesmos sintomas das demais formas da doença.
Os sinais mais comuns incluem:
A dengue também pode ocorrer sem sintomas ou evoluir de maneira leve, mas isso não significa que a doença deva ser ignorada. O Ministério da Saúde recomenda procurar atendimento para avaliação e diagnóstico sempre que houver suspeita.
Um dos pontos que mais confundem quem contrai dengue é a impressão de que a melhora da febre significa que o perigo passou.
Nem sempre.
Segundo o Ministério da Saúde, os sinais de alarme costumam aparecer justamente quando a febre começa a desaparecer, geralmente entre o terceiro e o sétimo dia da doença.
Por isso, quem estiver com suspeita ou diagnóstico de dengue deve ficar atento a sinais como:
A presença desses sintomas exige atendimento médico imediato, porque pode indicar evolução para uma forma grave da doença.
Não existe um tratamento específico que elimine diretamente o vírus. A conduta depende da gravidade e envolve principalmente hidratação, acompanhamento e controle dos sintomas. O Ministério da Saúde orienta hidratação oral para os casos que podem ser acompanhados em casa e acompanhamento médico conforme a evolução.
Outro cuidado importante é não se automedicar.
Medicamentos à base de ácido acetilsalicílico, como AAS e aspirina, e anti-inflamatórios como ibuprofeno, diclofenaco e nimesulida não devem ser utilizados em casos suspeitos de dengue devido ao risco de sangramento.
A escolha de medicamentos para febre e dor deve ser feita com orientação de profissional de saúde.
Após a confirmação dos nove casos, a Vigilância em Saúde de Campo Verde intensificou o trabalho no Residencial Santa Rosa, área que entrou em atenção das equipes municipais.
Entre as ações estão visitas aos imóveis, orientação aos moradores e aplicação de larvicida em pontos considerados necessários.
Também está previsto um mutirão de limpeza no bairro, com o objetivo de eliminar possíveis criadouros e reduzir a presença do Aedes aegypti.
A estratégia é importante mesmo durante o período de seca.
Embora a quantidade de água disponível no ambiente seja menor, basta um pequeno recipiente acumulando água para permitir a reprodução do mosquito. O Ministério da Saúde ressalta que os ovos do Aedes aegypti podem permanecer viáveis por meses e que a eliminação dos criadouros deve ser feita continuamente.
O combate não depende apenas dos agentes de endemias. Grande parte dos criadouros pode estar dentro dos próprios imóveis.
A recomendação é fazer uma vistoria frequente no quintal, varanda, garagem e demais áreas externas.
Pneus, garrafas, latas, baldes, vasos de plantas, bandejas, lonas e qualquer outro recipiente que acumule água devem ser eliminados ou armazenados de forma que não permitam a formação de criadouros.
Também é importante:
Manter caixas-d’água totalmente fechadas;
Limpar calhas e ralos;
Trocar e lavar com frequência a água dos animais domésticos;
Retirar folhas e sujeiras que possam acumular água;
Virar garrafas, baldes e recipientes de cabeça para baixo;
Manter piscinas tratadas e devidamente cuidadas;
Não deixar lixo ou materiais descartáveis expostos à chuva.
O Ministério da Saúde considera o controle do Aedes aegypti a principal estratégia de prevenção da dengue e recomenda também medidas individuais contra picadas, principalmente durante o dia, período em que o mosquito costuma ter maior atividade.
Repelentes à base de icaridina, DEET ou IR3535 podem ser utilizados conforme as orientações do fabricante. Roupas que cubram braços e pernas, telas em portas e janelas e mosquiteiros também ajudam a reduzir o contato com o mosquito.
A vacinação é outra ferramenta de prevenção, mas não substitui o combate aos criadouros.
A Anvisa mantém registrada a vacina Qdenga, indicada para pessoas de 4 a 60 anos, em duas doses com intervalo de três meses.
Em 2026, o Ministério da Saúde também iniciou uma estratégia nacional com a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante é licenciado para pessoas de 12 a 59 anos, enquanto a estratégia do SUS começou com públicos definidos pelo Ministério da Saúde e vem sendo ampliada gradualmente.
A disponibilidade e o público elegível podem variar conforme a estratégia de vacinação adotada em cada município. Por isso, a orientação é procurar a unidade de saúde local para verificar quem pode receber a vacina.
A confirmação dos nove casos em Campo Verde não significa que a população deva entrar em pânico.
A própria Vigilância em Saúde municipal reforça que o objetivo é aumentar a atenção e interromper a circulação do mosquito, especialmente em uma região onde já houve confirmação do sorotipo 3.
A principal preocupação é evitar que pessoas infectadas continuem sendo picadas pelo Aedes aegypti. Quando um mosquito pica uma pessoa infectada, pode adquirir o vírus e transmiti-lo posteriormente para outras pessoas.
Por isso, quem apresentar sintomas compatíveis com dengue deve procurar atendimento e também evitar novas picadas durante o período de doença, ajudando a diminuir a possibilidade de transmissão.
No caso de Campo Verde, os nove pacientes confirmados não estão internados e não apresentam quadro grave até o momento. Ainda assim, a recomendação é manter atenção aos sinais de alarme e seguir as orientações das equipes de saúde.
O recado é simples: o mosquito não entra em quarentena porque chegou a seca.
Enquanto houver água acumulada, mesmo em pequenas quantidades, o Aedes aegypti continuará encontrando oportunidades para se reproduzir. E, com o DENV-3 voltando a circular em diferentes partes do Brasil, manter os quintais limpos e eliminar criadouros continua sendo uma das formas mais eficazes de proteger a comunidade.
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