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Polícia

Do Tatu Bola para a mira da PF

Empresária de Cuiabá é presa em operação da PF que investiga tráfico internacional por aeronaves

A empresária e advogada Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro, de Cuiabá, foi presa pela Polícia Federal nesta terça-feira (25), durante a Operação Bóreas, investigação que apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de manter uma estrutura logística para o transporte aéreo internacional de drogas e armas de fogo.

A operação foi deflagrada pela Polícia Federal no Tocantins e cumpriu três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão, além de medidas para apreensão de aeronaves e bloqueio e sequestro de bens e valores. A Justiça Federal também autorizou a adoção de medidas para localizar, por meio da Interpol, outros investigados que estariam fora do país.

A prisão de Thatiana já havia sido noticiada pelo MT24h em reportagem publicada no início da operação. Confira a primeira reportagem do MT24h sobre a prisão da empresária

Thatiana é conhecida no meio empresarial cuiabano e aparece como sócia e administradora da TRMT Restaurante Ltda., responsável pelo Tatu Bola Bar, na região da Praça Popular, um dos pontos mais movimentados da vida noturna da capital. Até o momento, não há informação oficial de que o bar tenha sido alvo da operação ou utilizado para a prática dos crimes investigados.

A própria Polícia Federal ainda não divulgou publicamente qual seria, de forma detalhada, a participação atribuída especificamente à empresária dentro da organização investigada. Esse ponto permanece em apuração e parte dos elementos reunidos pela investigação está sob sigilo.

Operação investiga uma “estrutura aérea” do tráfico

Segundo a Polícia Federal, o grupo investigado teria montado uma estrutura voltada à organização de voos, utilização de aeronaves, pistas clandestinas e suporte logístico para transportar grandes carregamentos de cocaína e armas de fogo.

A suspeita é de que as cargas tenham origem na Bolívia e no Peru e sejam levadas para o território brasileiro por meio dessa estrutura. A investigação começou a partir de apurações relacionadas a apreensões de drogas realizadas no Tocantins e, com o avanço das diligências, os investigadores passaram a identificar uma possível rede responsável pelo deslocamento aéreo dos carregamentos.

A descrição oficial da Polícia Federal deixa claro que o foco da Bóreas não é apenas a droga encontrada em uma determinada apreensão, mas a estrutura logística que permitiria movimentar entorpecentes e armamentos entre países, utilizando aviões e pistas clandestinas.

A PF informou ainda que os investigados poderão responder, de acordo com a participação individual de cada um, por tráfico internacional de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro, além de outros crimes que possam ser identificados durante o avanço do inquérito.

A operação contou com a participação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF no Tocantins, da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Tocantins e de policiais federais de Redenção, no Pará.

Thatiana foi um dos alvos em Cuiabá

Em Mato Grosso, Thatiana foi alvo das medidas judiciais cumpridas em Cuiabá. Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, policiais também apreenderam objetos e bens na residência da empresária, entre eles dinheiro em espécie, joias, telefone celular e veículos. O valor total do dinheiro e a avaliação individual dos bens não foram divulgados.

A apreensão, por si só, não significa que os valores ou objetos tenham origem ilícita. A função da investigação será justamente verificar a procedência do patrimônio, a eventual relação com os fatos apurados e se houve utilização desses bens para ocultar ou movimentar recursos.

A Polícia Federal confirmou oficialmente as medidas de apreensão de bens e valores e de aeronaves, mas não detalhou publicamente, em sua nota inicial, todos os itens recolhidos em cada endereço.

Por isso, informações sobre valores, modelos de veículos e outros bens atribuídos ao cumprimento da busca devem ser tratadas com cautela enquanto não houver detalhamento oficial nos autos ou pela própria PF.

Defesa nega envolvimento da empresária

A defesa de Thatiana rejeita a hipótese de participação no esquema e afirma que não existem elementos concretos suficientes para justificar a prisão preventiva.

O advogado Fernando Faria declarou que os documentos reunidos no processo, na visão da defesa, não demonstram participação da empresária nos crimes investigados nem ligação entre a empresa da qual ela é sócia e a suposta organização criminosa.

A defesa também sustenta que houve problemas no cumprimento da busca e apreensão. Segundo o advogado, policiais teriam acessado o telefone celular da empresária antes de o aparelho ser formalmente lacrado e, posteriormente, colocado o dispositivo em modo avião.

Para a defesa, a sequência teria comprometido a chamada cadeia de custódia, argumento que deverá ser apresentado e discutido dentro do processo judicial.

Outro questionamento envolve a participação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) durante o cumprimento das diligências, já que Thatiana exerce a advocacia. O advogado afirma que os agentes teriam iniciado os procedimentos antes da chegada de um representante da entidade.

A Polícia Federal, nas informações públicas consultadas, não apresentou uma resposta específica sobre essas alegações da defesa.

Defesa também cita filho de 9 anos

Outro argumento utilizado para tentar derrubar a prisão preventiva é a situação familiar da investigada.

Segundo o advogado, Thatiana tem residência fixa, não possui antecedentes criminais e é responsável pelos cuidados diários de uma criança de 9 anos. A defesa sustenta que essas circunstâncias poderiam justificar a substituição da prisão por medidas cautelares menos gravosas.

Após a prisão, a defesa informou que pretende pedir a revogação da preventiva ou a substituição por outras medidas determinadas pelo Judiciário. Caso o pedido seja negado, a intenção é recorrer ao Tribunal.

Um dos principais alvos foi preso no Pará

Outro investigado citado no contexto da Operação Bóreas é Matheus Matias de Oliveira, de 28 anos, localizado em Redenção, no Pará. Ele aparece como um dos principais alvos da investigação, segundo as informações divulgadas sobre a operação.

A PF, entretanto, não detalhou publicamente toda a estrutura e a função que cada investigado teria desempenhado. Por isso, a atribuição de responsabilidades individuais ainda depende do avanço do inquérito e da análise das provas.

A investigação também prevê a inclusão de dez alvos nos mecanismos de Difusão Vermelha da Interpol, medida utilizada para pedir a localização internacional de pessoas procuradas pela Justiça.

Relação com a família da empresária ainda é investigada

A investigação ganhou outro elemento porque Márcio Theodoro, irmão de Thatiana, foi preso em fevereiro de 2025 após ser encontrado em uma aeronave com cocaína em Marianópolis, no Tocantins, durante uma ação integrada de combate ao crime organizado.

Segundo a defesa de Thatiana, eventuais referências feitas a ela na apuração estariam relacionadas a mensagens envolvendo o advogado de seu irmão. Os advogados negam que isso demonstre participação da empresária em organização criminosa.

A possível conexão entre a prisão de Márcio, apreensões anteriores de drogas e a estrutura investigada agora pela Operação Bóreas ainda precisa ser esclarecida pelas autoridades. Não é possível, com os elementos públicos disponíveis, concluir que o envolvimento de um familiar estabeleça participação automática de Thatiana.

O que acontece agora

A Operação Bóreas ainda está em andamento e a investigação deverá avançar sobre documentos, celulares, movimentações financeiras, aeronaves e demais materiais recolhidos durante as diligências.

O objetivo é reconstruir a estrutura investigada e identificar quem financiava os voos, quem disponibilizava as aeronaves e pistas, quem organizava a logística e quem recebia ou movimentava os recursos.

Para Thatiana, o ponto central será justamente esclarecer qual relação, se alguma, ela teria com essa estrutura.

De um lado, a Polícia Federal colocou a empresária entre os alvos de uma investigação de grande porte sobre tráfico internacional, organização criminosa e lavagem de dinheiro. De outro, a defesa afirma que não há elementos suficientes sequer para mantê-la presa e sustenta que sua atuação profissional e empresarial não pode ser confundida com participação em uma organização criminosa.

A prisão preventiva também não representa condenação. A investigação continuará e eventual responsabilidade criminal deverá ser definida a partir das provas produzidas no processo e das decisões do Poder Judiciário.

O caso chama atenção em Cuiabá principalmente pelo perfil da investigada e pelo tamanho da estrutura descrita pela PF. A Bóreas apura uma suposta operação que teria usado a aviação clandestina como peça logística para levar cocaína e armas de países vizinhos até o Brasil.

Agora, a principal pergunta da investigação é saber qual era exatamente o papel de cada pessoa nessa engrenagem e, no caso de Thatiana, se havia ou não participação consciente nas atividades investigadas.

Até que isso seja esclarecido, todas as acusações contra a empresária permanecem no campo da investigação, enquanto a defesa segue contestando a prisão e a forma como as diligências foram realizadas.