
A investigação sobre a morte de Ana Cristina Pacheco Matos, de 20 anos, ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (17), após a Polícia Civil descobrir que um subtenente da Polícia Militar manteve uma ligação de aproximadamente oito minutos com o principal suspeito do feminicídio poucas horas depois do crime.
O suspeito é Fabiano Oliveira Borges, de 43 anos, conhecido como “Pépi”, que continua sendo procurado pela Polícia Civil. Ana Cristina foi baleada na nuca na manhã de sábado (15), dentro da casa onde morava, no bairro Alvorada, em Cuiabá. O filho dela, de apenas 3 anos, estava no imóvel no momento do crime.
O policial envolvido no contato foi identificado como Joarez Candido Silva, subtenente lotado no 9º Batalhão da PM e que, segundo as informações divulgadas, estava em licença-prêmio e não estava trabalhando no momento do crime. Ele prestou depoimento nesta segunda-feira na Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Segundo o delegado Bruno Abreu, responsável pela investigação, os policiais chegaram ao contato ao encontrarem um computador conectado ao WhatsApp Web na loja de assistência técnica pertencente ao suspeito. A máquina registrava uma conversa com o militar e uma ligação feita depois que Joarez tomou conhecimento de que Fabiano era procurado.
De acordo com a versão apresentada pelo subtenente, ele soube do crime por meio de comunicações internas da própria polícia. Ao reconhecer o nome de Fabiano, teria tentado entrar em contato para convencê-lo a se entregar.
A primeira tentativa não teria sido atendida. Cerca de dez minutos depois, o próprio Fabiano teria retornado a ligação, e os dois permaneceram conversando por aproximadamente oito minutos.
O ponto que chamou a atenção da investigação foi o fato de o contato não ter sido comunicado imediatamente aos superiores.
Segundo o delegado, o militar teria tomado conhecimento da identidade do suspeito por volta das 10h40 e conversado com ele pouco depois. A comunicação formal sobre o contato, porém, só teria ocorrido horas mais tarde, depois que a Polícia Civil entrou em contato com o próprio policial.
Bruno Abreu classificou a situação como, no mínimo, estranha e afirmou que considera difícil acreditar que um suspeito de feminicídio permanecesse oito minutos ao telefone com um policial caso não houvesse algum grau de confiança entre eles.
O delegado também disse que o militar afirmou que pretendia realizar a prisão por conta própria e “ser o herói” da captura. Essa, porém, é uma avaliação apresentada pela autoridade responsável pela investigação; não há, até o momento, confirmação de que o policial tenha efetivamente ajudado Fabiano a fugir.
Em nota, a Polícia Militar informou que o subtenente não foi preso e que compareceu voluntariamente à DHPP para prestar esclarecimentos.
A corporação sustentou que o contato teve como objetivo tentar convencer o suspeito a se entregar e afirmou que o militar forneceu informações aos investigadores.
A PM também informou que continua trabalhando, junto com a Polícia Civil, para localizar Fabiano.
Assim, até o momento, existem duas versões principais sobre a ligação: a apresentada pelo militar, de que tentava intermediar uma rendição, e a suspeita levantada pela investigação, que busca descobrir se o contato teve outra finalidade.
A ligação só veio à tona durante as diligências realizadas na loja PepiCell Assistência Técnica, ligada ao principal suspeito.
No local, os investigadores encontraram um computador aberto em uma sessão de WhatsApp Web. O conteúdo permitiu identificar a conversa entre Fabiano e o policial e o registro da ligação de oito minutos.
Quando a Polícia Civil voltou ao estabelecimento para cumprir novas medidas de busca e apreensão e recolher equipamentos eletrônicos para perícia, encontrou a loja arrombada e revirada.
Segundo o delegado, os computadores e demais aparelhos que deveriam ser recolhidos já não estavam mais no local. O único item apreendido naquele momento foi o coldre relacionado à arma utilizada no crime, conforme informado pela investigação.
Além disso, a Justiça decretou prisão temporária de 30 dias contra Fabiano, que continua foragido.

A morte de Ana Cristina ocorreu na manhã de sábado, no bairro Alvorada.
Segundo as informações da ocorrência, o filho de 3 anos da vítima estava na residência. Após o disparo, a jovem foi encontrada gravemente ferida e acabou sendo levada ao Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), mas não resistiu.
De acordo com relatos reunidos pela polícia, Ana Cristina e Fabiano haviam tido um relacionamento recente e atravessavam um período de conflitos. O delegado afirmou que havia informações de que a jovem pretendia retomar o relacionamento com o ex-companheiro, pai de seu filho, o que teria provocado ciúmes e ameaças por parte de Fabiano.
A investigação também analisa a possibilidade de premeditação.
Segundo o delegado, uma mala com pertences de Fabiano foi encontrada na residência, já preparada para uma possível viagem. Para os investigadores, isso pode indicar uma tentativa de construir previamente uma justificativa para sua ausência após o crime.
Essa é uma linha de investigação, e não uma conclusão definitiva sobre a motivação ou o planejamento do homicídio.
Após o disparo, o suspeito teria deixado a casa em uma motocicleta.
Fabiano segue sendo procurado pelas forças de segurança.
Segundo o delegado, testemunhas relataram que ele costumava andar armado e possuía antecedentes relacionados a crimes como tráfico, roubo e furto.
A Polícia Civil trabalha agora para localizar o suspeito, esclarecer a dinâmica do feminicídio e verificar se outras pessoas colaboraram para a fuga.
Paralelamente, a investigação sobre o contato com o policial militar deve avaliar se houve apenas uma tentativa informal de negociação para rendição ou se o contato teve algum papel na fuga.
Até o momento, o subtenente não foi apontado oficialmente como coautor do feminicídio, e a eventual responsabilização dele dependerá da apuração dos fatos.
A morte de Ana Cristina ocorre em um cenário de preocupação com os índices de feminicídio em Mato Grosso.
Os dados citados na reportagem de referência apontam que o estado havia chegado a 31 feminicídios em 2026 com a morte da jovem, segundo números do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso. Como esses indicadores podem ser atualizados conforme novos registros são contabilizados, o número deve ser tratado de acordo com a data de referência da estatística.
O caso também reforça a importância de reconhecer sinais de violência antes que eles evoluam para situações extremas. A Lei Maria da Penha considera violência doméstica e familiar não apenas agressões físicas, mas também ameaças, perseguição, controle, humilhações, violência patrimonial e outras formas de violência contra a mulher.
Em Mato Grosso, o aplicativo SOS Mulher MT oferece recursos de apoio, incluindo acesso a medidas protetivas e, em cidades habilitadas, o botão do pânico virtual.
A medida protetiva pode ser solicitada por mulheres vítimas de violência doméstica e familiar em delegacias, Ministério Público ou Defensoria Pública, conforme as regras aplicáveis ao caso.
A investigação sobre a morte de Ana Cristina e a possível participação de terceiros continua em andamento.
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