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O “juiz” foi preso

Polícia interrompe “tribunal do crime” e resgata seis pessoas de cativeiro em Primavera do Leste

Uma investigação que começou com o desaparecimento de um homem de 42 anos acabou levando a Polícia Civil a descobrir um cenário ainda mais grave em Primavera do Leste, no sudeste de Mato Grosso. No fim da tarde desta segunda-feira (24), investigadores encontraram seis pessoas mantidas em cárcere privado dentro de uma residência e interromperam o que, segundo a apuração, seria uma punição violenta organizada por integrantes de uma facção criminosa.

As vítimas, quatro mulheres e dois homens, teriam sido sequestradas e levadas para o imóvel para serem submetidas a um chamado “salve”, expressão usada para designar agressões e outras formas de punição impostas por organizações criminosas. A rápida intervenção policial impediu que a ação avançasse.

No imóvel, os policiais encontraram cinco suspeitos, sendo três adultos e dois adolescentes. Todos foram conduzidos à unidade policial para os procedimentos legais.

A descoberta aconteceu durante uma investigação da Delegacia de Homicídios e Delitos Gerais de Primavera do Leste sobre o desaparecimento de um homem identificado pelas iniciais J.C.J.S., de 42 anos, desaparecido desde abril deste ano.

Durante as diligências, os investigadores conseguiram identificar um veículo que teria sido utilizado no sequestro e desaparecimento do homem. O automóvel também estaria sendo utilizado por pessoas já mencionadas nos levantamentos de inteligência relacionados à investigação. A equipe passou a acompanhar o veículo e chegou até uma residência que entrou no radar da polícia.

Foi então que surgiu a informação de que outras pessoas teriam sido sequestradas e levadas para o mesmo endereço.

Diante da possibilidade de haver vítimas privadas de liberdade dentro da casa e em risco imediato, os policiais decidiram intervir.

Parte das vítimas estava em um quarto fechado. Em outro ponto da residência, uma delas foi encontrada sentada em uma cadeira diante de um dos investigados, situação que reforçou a suspeita de que uma punição violenta estava prestes a acontecer.

E foi justamente nesse momento que os suspeitos, segundo a Polícia Civil, tentaram apagar rastros.

Quando os policiais entraram no imóvel, um dos investigados arremessou o próprio celular para a rua, por baixo de um caminhão, aparentemente tentando inutilizar o aparelho. Ao mesmo tempo, dentro do quarto, os agentes ouviram barulhos compatíveis com celulares sendo jogados contra o chão e quebrados.

As próprias vítimas confirmaram que tiveram os celulares retirados depois de serem levadas para a residência.

A investigação aponta ainda que integrantes da organização criminosa teriam recebido orientação para destruir os aparelhos caso a polícia aparecesse, justamente para dificultar a recuperação de conversas, imagens e outras provas capazes de revelar a estrutura do grupo.

Mesmo com a tentativa de apagar evidências, os policiais apreenderam diversos celulares. Alguns estavam intactos, enquanto outros apresentavam sinais de dano. Havia ainda aparelhos cuja propriedade ainda não havia sido identificada no momento da ocorrência.

A casa, porém, não teria servido apenas como cativeiro.

Durante as buscas, os policiais encontraram porções de maconha já embaladas em sacos plásticos tipo ziplock, além de embalagens vazias e duas balanças de precisão. Para a Polícia Civil, o conjunto dos materiais é compatível com preparação e comercialização de drogas.

Assim, além do cárcere privado e da suspeita de atuação de uma facção, o imóvel também entrou na investigação por possível tráfico de entorpecentes.

A Polícia Civil não divulgou a identidade dos cinco suspeitos presos e não detalhou, neste primeiro momento, qual teria sido a participação individual de cada um deles. Os adolescentes, por serem menores de idade, serão submetidos aos procedimentos previstos na legislação específica.

As seis vítimas foram retiradas da residência e ficaram sob atendimento das autoridades. A prioridade da equipe, segundo a Polícia Civil, foi preservar a integridade física delas e impedir que fossem submetidas às agressões previstas pela organização criminosa.

A investigação, entretanto, continua.

O desaparecimento do homem de 42 anos que deu origem às diligências ainda não foi esclarecido. A Polícia Civil tenta descobrir se existe ligação direta entre o sumiço dele e as pessoas encontradas no cativeiro.

Esse ponto pode ser decisivo para a investigação, já que o veículo acompanhado pelos investigadores teria sido utilizado no desaparecimento e também estaria relacionado às pessoas que estavam na residência.

A polícia também deverá analisar os celulares apreendidos, inclusive os aparelhos que foram danificados durante a entrada das equipes. Conversas, arquivos, contatos e outros dados poderão ajudar a identificar novos integrantes, financiadores, mandantes ou outras pessoas que eventualmente tenham participado dos sequestros.

O material encontrado no imóvel também será submetido à análise, e as investigações devem buscar esclarecer quem determinou as punições, por que as seis vítimas foram levadas para o local e se o grupo está envolvido em outros crimes na região.

Apesar de ser popularmente chamado de “tribunal do crime”, o termo não representa qualquer procedimento legal. Trata-se de uma expressão usada para descrever julgamentos e punições clandestinas promovidos por organizações criminosas, que podem envolver agressões, tortura e até execuções.

Neste caso, a intervenção policial ocorreu antes que a punição fosse realizada, segundo os investigadores.

A operação também revela como uma investigação sobre um único desaparecimento pode acabar expondo uma estrutura criminosa muito maior. O que começou com a tentativa de localizar um homem desaparecido levou os policiais a um imóvel onde seis outras pessoas estavam privadas de liberdade e cinco suspeitos estavam reunidos.

Agora, a Polícia Civil terá que juntar as peças desse quebra-cabeça: o desaparecido, o veículo, o cativeiro, os cinco suspeitos, as seis vítimas, os celulares destruídos e a possível estrutura de tráfico encontrada na casa.

As investigações continuam para individualizar as condutas e identificar outros envolvidos.