
A madrugada em Nobres teve direito a arma carregada, bebida, ameaça e uma declaração que parece saída de roteiro de filme policial. O protagonista da ocorrência, desta vez, foi o vice-prefeito do município, Sérgio Shoji Takeuti, de 71 anos, preso nesta quinta-feira (20) após ser encontrado com um revólver calibre .38 em uma distribuidora.
Segundo a Polícia Militar, tudo começou quando clientes do estabelecimento, no bairro Aeroporto, perceberam um homem armado e ficaram assustados. A PM foi chamada e encontrou Sérgio no local.
De acordo com o boletim de ocorrência, o político apresentava sinais de embriaguez, com fala alterada, exaltação e forte odor de álcool. Durante a abordagem, os policiais encontraram uma bolsa bege que estava com ele. Dentro, havia um revólver calibre .38 com cinco munições, além de outras 22 munições do mesmo calibre.
Ou seja, não era exatamente uma ida inocente à distribuidora.
Sérgio recebeu voz de prisão e foi levado primeiro para a unidade da Polícia Militar. O caso, porém, teria ficado ainda mais sério no caminho para a delegacia.
Segundo os policiais, o vice-prefeito teria começado a fazer ameaças contra os agentes responsáveis pela prisão. Conforme o registro, ele afirmou que teria contatos com integrantes de uma facção criminosa e que poderia acionar essas pessoas para matar os policiais.
E não parou aí. Ainda segundo o boletim, Sérgio teria dito que um “pistoleiro bem pago” resolveria a situação.
A frase, por enquanto, aparece apenas no relato dos policiais. Não há informação de que qualquer integrante de facção tenha sido acionado, tampouco de que exista uma organização criminosa envolvida na ocorrência. O conteúdo das ameaças, no entanto, foi registrado pelos agentes e poderá ser analisado durante a investigação.
Na delegacia, a situação teria continuado quente. Segundo a PM, Sérgio passou a xingar os policiais civis de plantão, chamando os agentes de “policiais de merda” e “seus bostas”.
Os policiais informaram ainda que gravaram as supostas ameaças em áudio e encaminharam o arquivo para a Polícia Civil.
A arma e as munições foram apreendidas, e Sérgio passou a responder, em tese, por porte ilegal de arma de fogo, ameaça e desacato. A definição das responsabilidades, claro, cabe agora à investigação e à Justiça.
O advogado Moacir Ribeiro, que representa o vice-prefeito, apresentou uma versão bem diferente da narrativa policial. Segundo ele, tudo não passou de um “mal-entendido” e de um episódio pontual.
“Foi uma situação de exagero pontual de ambas as partes, tanto da polícia quanto dele, eles afirmam que ocorreu desacato e fizeram a detenção dele”, afirmou.
A defesa também disse que Sérgio é uma pessoa conhecida em Nobres, onde vive há décadas, e que a expectativa era de que ele fosse liberado após a audiência de custódia.
A Prefeitura de Nobres também se manifestou, mas preferiu ficar fora da treta. Em nota, informou que tomou conhecimento da ocorrência e classificou o episódio como uma questão da esfera pessoal do vice-prefeito, sem relação com as atividades administrativas do município.
O caso será analisado pela Polícia Civil, que deverá ouvir os envolvidos, verificar os áudios das supostas ameaças e apurar as circunstâncias da posse da arma.
Também caberá à Justiça analisar a situação do vice-prefeito na audiência de custódia e decidir quais medidas serão adotadas.
Até o momento, não existe condenação e a acusação de que ele teria ligação com facção criminosa não foi comprovada. A única informação oficial sobre esse ponto é que, segundo a PM, o político teria citado integrantes de uma facção durante as ameaças.
No fim das contas, o que era para ser uma madrugada qualquer em uma distribuidora terminou com o vice-prefeito preso, um .38 apreendido, 27 munições contabilizadas e uma história envolvendo até suposto “pistoleiro bem pago”.
Agora falta descobrir se tudo isso foi apenas a consequência de uma madrugada de bebida e descontrole ou se a investigação vai encontrar algo além da confusão registrada pelos policiais.