
A Polícia Civil de Mato Grosso concluiu a investigação da Operação Agro-Fantasma e indiciou quatro pessoas por suspeitas de participação em um esquema que teria provocado mais de R$ 70 milhões em prejuízos a um produtor rural da região oeste do Estado.
A apuração foi conduzida pela Delegacia de Comodoro e investigou negociações envolvendo compra e revenda de grãos, além de operações financeiras e outros negócios que, segundo a polícia, teriam sido utilizados dentro da estrutura investigada.
A suspeita é de que os envolvidos tenham utilizado empresas ligadas ao agronegócio para construir uma aparência de solidez financeira e conquistar a confiança dos produtores.
A estratégia, segundo o inquérito, começava com operações comerciais que eram cumpridas normalmente. Os pagamentos iniciais ajudavam a criar uma relação de confiança e abriam espaço para negociações cada vez maiores.
Com essa credibilidade estabelecida, a vítima teria sido convencida a realizar, em seu próprio nome, compras de grandes volumes de grãos com pagamento a prazo.
Os produtos, por sua vez, eram revendidos rapidamente pelas empresas investigadas, muitas vezes em operações com pagamento à vista.
O dinheiro entrava de forma imediata para os negócios, enquanto as obrigações pelas compras permaneciam registradas em nome do produtor.
Segundo a investigação, quando o volume das negociações aumentou, os pagamentos que anteriormente vinham sendo realizados deixaram de ser cumpridos. O resultado foi uma sequência de dívidas que atingiu o produtor rural e também instituições financeiras envolvidas nas operações.
O prejuízo investigado ultrapassou R$ 70 milhões e não ficou restrito às negociações com grãos. A apuração também identificou perdas relacionadas à venda de uma aeronave e à contratação de empréstimos bancários.
A Operação Agro-Fantasma foi deflagrada em março deste ano justamente para aprofundar as suspeitas. Na primeira fase, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão, além de medidas de bloqueio de contas e indisponibilidade de bens. As ordens atingiram endereços em Cuiabá, Alto Taquari e Campo Grande (MS).
Durante aquela etapa, uma aeronave avaliada em mais de R$ 5,8 milhões, veículos, dinheiro e outros bens foram alvo de medidas judiciais.
Ao avançar na análise do material apreendido, os investigadores encontraram inconsistências em documentos fiscais e registros relacionados ao transporte das cargas.
Entre os pontos considerados suspeitos estavam incompatibilidades logísticas, repetição incomum de pesos, emissão de documentos em períodos considerados incompatíveis com o deslocamento das mercadorias e operações de revenda realizadas com margens negativas.
Para a Polícia Civil, esses elementos ajudaram a reforçar a hipótese de que as negociações não ocorreriam de maneira aleatória, mas fariam parte de uma estrutura organizada.
A investigação também apontou que os quatro suspeitos teriam funções diferentes dentro da operação. Enquanto alguns atuariam nas negociações com fornecedores e produtores, outros estariam ligados à compra e revenda dos grãos, emissão de documentos e movimentação dos valores.
Outro elemento analisado foi a utilização de empresas para dar aparência de normalidade às operações e dificultar a identificação do caminho percorrido pelos recursos.
Uma investigação posterior chegou a apontar, inclusive, que um imóvel teria sido utilizado como uma espécie de “garantia de fachada” em uma operação relacionada ao valor milionário, com transferências consideradas fictícias entre pessoas e empresas. Esse ponto integra a apuração sobre a estrutura financeira do negócio.
Com o encerramento do inquérito, quatro investigados foram indiciados.
Dois deles deverão responder, segundo a Polícia Civil, por estelionato em continuidade delitiva, associação criminosa e fraude processual.
Os outros dois foram indiciados por estelionato em continuidade delitiva e associação criminosa.
O indiciamento representa a conclusão da investigação policial sobre a existência de elementos que apontariam para a prática dos crimes, mas não equivale a uma condenação.
Agora, o material será encaminhado ao Ministério Público, que deverá analisar as provas e decidir se oferece ou não denúncia à Justiça.
Somente depois dessa etapa haverá eventual processo criminal, no qual os investigados terão direito à defesa e ao contraditório.
A investigação chamou atenção pelo tamanho do valor envolvido.
A estimativa de mais de R$ 70 milhões reúne não apenas as operações de compra e revenda de grãos, mas também prejuízos apontados em negociações envolvendo uma aeronave e empréstimos bancários.
O caso começou a partir da denúncia apresentada por um produtor rural, que relatou ter sido colocado em uma posição de elevado risco financeiro dentro das negociações.
Segundo a investigação, a estratégia dos suspeitos teria sido justamente fazer com que o produtor assumisse compromissos financeiros enquanto os produtos adquiridos eram rapidamente comercializados pelas empresas ligadas ao grupo.
Quando os pagamentos deixaram de ocorrer, o produtor permaneceu responsável pelas obrigações assumidas.
A apuração inicial da operação tratava de um prejuízo estimado em cerca de R$ 70 milhões, embora diferentes reportagens tenham apresentado valores distintos ao longo da investigação, conforme documentos e etapas do caso foram sendo analisados.
Com o encerramento do trabalho policial, a investigação terá agora uma frente relacionada à área tributária.
Empresas envolvidas nas negociações deverão ser submetidas a auditorias da Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso (Sefaz-MT).
O objetivo será verificar possíveis irregularidades fiscais e identificar se houve eventual prática de crimes contra a ordem tributária estadual ou federal.
Caso sejam encontradas irregularidades, os resultados poderão ser encaminhados às autoridades responsáveis pelas providências cabíveis.
A situação das empresas também já foi objeto de decisões judiciais durante o andamento da investigação. Em março, a Justiça determinou, em determinado momento, o desbloqueio parcial de valores de uma das empresas investigadas para permitir o pagamento da folha de funcionários, enquanto o Ministério Público analisava um grande volume de documentos reunidos no processo.
Isso mostra que as medidas tomadas durante a operação não significam, automaticamente, perda definitiva dos bens ou confirmação de culpa dos investigados. Cada bloqueio, apreensão ou sequestro depende de análise judicial e pode ser posteriormente revisto.
Com o inquérito concluído, a Polícia Civil encerra sua etapa de apuração e encaminha o caso para análise do Ministério Público.
A partir dos documentos, depoimentos, registros fiscais e demais provas reunidas, o órgão poderá decidir se existem elementos suficientes para apresentar denúncia.
Enquanto isso, os investigados permanecem protegidos pelas garantias legais até eventual decisão judicial definitiva.
A Operação Agro-Fantasma expõe, segundo a investigação, uma modalidade de fraude que teria se aproveitado justamente da dinâmica do agronegócio: grandes volumes de mercadorias, operações a prazo, revenda rápida e circulação de valores entre diferentes empresas.
Agora, caberá às próximas etapas da Justiça definir se os indícios reunidos pela Polícia Civil serão suficientes para responsabilizar criminalmente os envolvidos.
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