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Do chiqueiro ao palanque

“Rei do Porco” acumula histórico de multas ambientais e processos milionários antes de disputar vice em MT

O empresário Reinaldo Gomes de Morais, conhecido como “Rei do Porco”, chega à disputa pelo Governo de Mato Grosso como candidato a vice na chapa encabeçada pelo senador Wellington Fagundes (PL), mas também carrega um histórico empresarial que envolve autuações ambientais e disputas judiciais de valores milionários.

Reinaldo foi oficialmente apresentado como vice de Wellington em 13 de agosto, depois de uma sequência de mudanças na composição da chapa. Ele é empresário do agronegócio e sócio da Suinobras Alimentos, empresa que mantém atividades de suinocultura em Diamantino e que aparece em documentos de processos ambientais e judiciais.

Entre os casos mais relevantes está uma ação civil pública movida pelo Ministério Público de Mato Grosso, na qual a Suinobras e Reinaldo figuram como réus em uma investigação relacionada a danos ambientais nas nascentes do Rio Paraguai. O processo pede indenizações que chegam a aproximadamente R$ 2,86 bilhões, valor calculado a partir da avaliação dos danos ambientais e dos serviços ecossistêmicos que teriam sido afetados. A ação foi recebida pela Justiça em janeiro de 2024 e continua em tramitação, o que significa que não há condenação definitiva nesse valor.

O caso remonta a ocorrências registradas principalmente entre 2016 e 2020, quando órgãos ambientais realizaram fiscalizações na propriedade.

Documentos citados na ação apontam problemas no sistema de tratamento de efluentes da atividade de suinocultura, incluindo episódios de extravasamento de resíduos líquidos das lagoas de tratamento. Relatórios também registraram situações relacionadas à operação do empreendimento durante períodos em que havia determinações de embargo ou interdição.

Em 2016, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) já havia emitido termo de embargo e interdição. Em fiscalizações posteriores, foram apontadas novas irregularidades envolvendo o tratamento e o lançamento de efluentes.

Em 2019, por exemplo, uma fiscalização relatou o extravasamento de resíduos e problemas relacionados ao sistema de tratamento. Uma perícia realizada pela Politec também analisou a estrutura da empresa e os possíveis impactos na bacia hidrográfica do Alto Paraguai.

Foi nesse contexto que apareceram as multas que agora voltam ao debate político.

Segundo os documentos reunidos no processo, uma autuação relacionada ao funcionamento do empreendimento e a outras irregularidades ambientais resultou inicialmente em multa de aproximadamente R$ 1,02 milhão. Em recurso administrativo apresentado ao Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), porém, esse valor teria sido reduzido para R$ 120 mil.

Em outubro de 2020, uma nova fiscalização apontou que a atividade de suinocultura estaria funcionando sem licença ambiental e em descumprimento de termo de embargo. A multa aplicada nesse episódio foi de R$ 3,5 milhões.

Por isso, os dois autos mencionados nas referências somam originalmente cerca de R$ 4,52 milhões, mas é importante fazer a ressalva de que uma dessas penalidades sofreu redução na esfera administrativa. Assim, o número de R$ 4,52 milhões representa o valor originalmente aplicado nos dois autos, não necessariamente o montante final atualmente exigível em multas.

Mortandade de peixes no Rio Paraguai

A discussão ambiental ganhou dimensão ainda maior por causa de um episódio registrado em março de 2019, quando houve mortandade de peixes em cursos d’água ligados às nascentes do Rio Paraguai, na região de Diamantino.

De acordo com o Ministério Público, uma das fontes investigadas foi justamente o sistema de tratamento de efluentes da Suinobras. Relatórios técnicos apontaram problemas no sistema e presença de substâncias associadas à atividade de suinocultura na água.

Ao mesmo tempo, porém, a própria investigação identificou outras possíveis fontes de contaminação, incluindo o tombamento de um caminhão que transportava produtos agrícolas e a presença de agrotóxicos e fertilizantes nos cursos d’água.

Ou seja, o processo não trata o episódio como resultado necessariamente de uma única causa. A investigação considerou uma combinação de fatores ambientais e atividades econômicas na região.

Segundo a ação civil pública, a perícia atribuiu à Suinobras responsabilidade pelo lançamento de efluentes e pela contaminação do solo. O cálculo utilizado pelo Ministério Público para dimensionar os danos chegou a R$ 2.860.404.800.

Além da indenização bilionária, o MP pediu outras medidas, incluindo ações de recuperação ambiental, povoamento do Rio Paraguai com espécies afetadas e restrições relacionadas a novos impactos ambientais. O pedido ainda está sendo discutido judicialmente.

Empresa também enfrenta disputa judicial milionária

Além das questões ambientais, empresas ligadas a Reinaldo Morais aparecem em outras disputas na Justiça.

Uma delas envolve a Suinobras e a Poli-Nutri Alimentos, empresa do setor de nutrição animal. O processo teve origem em um acordo de aproximadamente R$ 5 milhões, relacionado a uma obrigação que a Suinobras teria assumido e posteriormente deixado de cumprir.

A Justiça do Paraná determinou, em 2024, o arresto de cinco imóveis registrados em Maringá, Cuiabá e Itapema, como forma de garantir a execução da dívida. Em fevereiro deste ano, outra decisão judicial determinou a penhora de suínos da empresa para garantir uma cobrança superior a R$ 3 milhões em um processo relacionado à mesma credora.

Em decisão analisada no início de agosto, o juiz Bruno Henrique Golon, da 7ª Vara Cível de Maringá, rejeitou pedido da Suinobras para suspender retenções sobre seus recebíveis.

A situação financeira apresentada no processo, entretanto, é diferente do valor original do acordo. Segundo a decisão, naquele momento a própria Suinobras reconhecia uma dívida atualizada de aproximadamente R$ 3,72 milhões, enquanto a credora apontava cálculo de aproximadamente R$ 3,77 milhões.

Após abatimentos realizados durante o processo, os cálculos apresentados pelas partes apontavam saldo próximo de R$ 1,62 milhão. Esses números mostram por que o valor original de R$ 5 milhões não deve ser tratado simplesmente como a dívida atualmente em aberto.

Reinaldo aparece no processo como garantidor e responsável solidário pela obrigação.

Patrimônio milionário

A trajetória empresarial de Reinaldo também é marcada por um patrimônio expressivo. Em sua candidatura ao Senado em 2020, ele declarou à Justiça Eleitoral aproximadamente R$ 158,2 milhões em bens. Na declaração daquele ano apareciam participações em empresas, imóveis, uma aeronave e outros ativos.

Em 2026, reportagens sobre a candidatura apontaram novamente patrimônio de dezenas de milhões de reais e participações relevantes na Suinobras e em outras empresas.

A dimensão dos negócios ajuda a explicar por que as disputas judiciais envolvendo suas empresas assumem valores elevados, mas patrimônio declarado e existência de processos não significam, por si só, insolvência ou ilegalidade empresarial.

Da granja para o palanque

Reinaldo construiu sua imagem pública principalmente ligada ao agronegócio e à produção de proteína animal. A Suinobras aparece há anos no setor de suinocultura de Mato Grosso, com operações em Diamantino e Pedra Preta e histórico de investimentos na produção.

Politicamente, ele disputou uma vaga ao Senado por Mato Grosso em 2020 e voltou ao centro das articulações eleitorais em 2026.

Em agosto, Wellington Fagundes confirmou seu nome como candidato a vice-governador. A composição ocorreu depois da saída de Marcelo Maluf e da passagem de Alencar Farina pela disputa interna pela vaga. O nome de Reinaldo também recebeu apoio de setores ligados à família Bolsonaro durante as articulações.

A entrada na chapa coloca, portanto, a situação empresarial do candidato no radar do debate eleitoral.

Os processos ambientais e cíveis envolvendo a Suinobras são públicos e continuam em diferentes estágios. No caso ambiental, o valor bilionário é um pedido do Ministério Público, e não uma condenação definitiva. Nas ações de cobrança, as decisões também estão sujeitas a recursos e à continuidade da execução judicial.

Reinaldo e a empresa já rejeitaram acusações relacionadas aos problemas ambientais em manifestações anteriores.

Diante disso, o quadro que chega à eleição é de um empresário com forte presença no agronegócio, patrimônio milionário e histórico de disputas judiciais envolvendo empresas das quais participa. Cabe à Justiça decidir as responsabilidades nos processos em andamento.

O que está documentado é que a Suinobras recebeu autuações ambientais, passou por embargos e interdições e é ré em uma ação civil pública que pede R$ 2,86 bilhões por danos ambientais, enquanto também enfrenta cobranças judiciais milionárias em outros processos.

O caso ambiental, em particular, ainda terá que responder uma pergunta central: qual foi exatamente a responsabilidade da empresa pelos danos apontados nos rios e nascentes da região e qual parcela dos prejuízos ambientais poderá, ao final do processo, ser atribuída a cada réu?

Essa resposta ainda depende da Justiça.