
Uma festa avaliada em mais de R$ 500 mil, realizada em um castelo em Sorriso, voltou a chamar atenção após a influenciadora Natiele Aparecida se tornar um dos alvos da Operação Engodo Digital, deflagrada nesta terça-feira (18) pela Polícia Civil de Mato Grosso.
A investigação apura um suposto esquema envolvendo exploração de jogos de azar, captação ilegal de apostas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e organização criminosa. Segundo a Polícia Civil, mais de R$ 28 milhões não declarados teriam circulado entre 2023 e 2025 em operações relacionadas ao grupo investigado.
Natiele teve endereço alvo de busca e apreensão em Sorriso. A Polícia Civil afirma que ela teria uma posição central na estrutura investigada e utilizava redes sociais para divulgar plataformas de apostas não autorizadas.
A festa que chamou atenção nas investigações, entretanto, aconteceu antes da operação, em 2024, quando a influenciadora comemorou sua participação como capa da Revista Sexy.
Na época, a celebração foi realizada no Castelo Don Joseph, em Sorriso, e teve custo superior a meio milhão de reais, segundo reportagens publicadas naquele período. O Metrópoles informou que o investimento ultrapassou R$ 500 mil, enquanto o Terra também registrou a dimensão do evento.

A comemoração ocorreu em janeiro de 2024 e foi organizada para celebrar a capa da revista.
O evento teve uma produção de grande porte, com convidados vestidos a rigor e decoração composta por mais de 12 mil rosas. Segundo reportagem publicada pelo Terra na época, Natiele teria bancado integralmente a festa.
Outro gasto mencionado na ocasião foi de aproximadamente R$ 11 mil em passagens aéreas para integrantes da equipe da Revista Sexy, que não conseguiram comparecer ao evento por problemas logísticos.
Naquele momento, a festa era apresentada publicamente como uma celebração do sucesso da influenciadora e de sua estreia como capa da revista. As publicações da época não tinham relação com a investigação policial deflagrada agora.
A conexão com a notícia atual está no fato de que a influenciadora passou a ser investigada pela Polícia Civil em uma operação que apura justamente a origem e a movimentação de recursos.
É importante destacar: o gasto de R$ 500 mil com a festa, por si só, não comprova que o dinheiro utilizado tenha origem ilícita. O valor aparece agora no contexto da repercussão da operação, mas cabe à investigação estabelecer a origem dos recursos e eventual relação com os fatos apurados.
Segundo a Polícia Civil, a investigação identificou mais de R$ 28 milhões em valores não declarados movimentados entre 2023 e 2025.
A suspeita é de que os recursos estejam ligados à exploração de plataformas de apostas não autorizadas.
De acordo com a apuração policial, Natiele utilizava duas contas em uma rede social para divulgar os jogos e direcionar seguidores para plataformas de apostas.
A atividade, segundo a investigação, continuava até pouco antes da operação. Conforme informado pela Polícia Civil, a influenciadora ainda teria divulgado jogos em seu Instagram na noite de segunda-feira (17), menos de 24 horas antes do cumprimento das ordens judiciais.
Além das redes sociais, a investigação identificou um grupo no WhatsApp mantido por Natiele e outra investigada. O espaço teria sido utilizado para compartilhar links e orientações relacionados às apostas.

A Polícia Civil também investiga o caminho percorrido pelos valores.
Segundo os investigadores, parte do dinheiro teria entrado em contas de empresas relacionadas a plataformas de apostas e, em seguida, sido redistribuída para uma rede formada por familiares e colaboradores da influenciadora.
Entre as empresas mencionadas pela investigação estão Cash Pay Meios de Pagamento Ltda., All Bet Entretenimento Ltda., Bytech Ltda. e HKP Pay Pagamentos.
Os investigadores também apontam suspeitas de utilização de empresas para dificultar o rastreamento da origem dos recursos.
Outra frente da investigação envolve o setor de beleza. Segundo a Polícia Civil, teriam sido identificadas empresas e possíveis simulações societárias utilizadas para dificultar a identificação dos responsáveis pelos valores movimentados.
Esses fatos ainda estão em fase de investigação.
A Operação Engodo Digital cumpriu 56 ordens judiciais em Mato Grosso e São Paulo.
As medidas incluem mandados de busca e apreensão, bloqueio de contas bancárias, sequestro de bens, quebra de sigilo telemático e bloqueio de contas em redes sociais.
A Justiça também determinou o bloqueio de mais de R$ 21,4 milhões em contas bancárias relacionadas aos investigados.
Também houve determinação para apreensão de passaportes e outras medidas cautelares.
Ao todo, são investigadas 10 pessoas físicas e oito empresas apontadas como integrantes de uma estrutura que teria atuado na divulgação e movimentação financeira relacionada a plataformas de apostas sem autorização e na suposta lavagem dos recursos.
As ordens são cumpridas principalmente em Sorriso, além de endereços em São Paulo e São Bernardo do Campo.
Em São Paulo, a ação conta com apoio do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).

Antes de se tornar alvo da operação, Natiele já tinha uma presença relevante nas redes sociais.
Com mais de 110 mil seguidores, ela costumava compartilhar viagens, eventos, produções pessoais e momentos de lazer.
Entre os destinos internacionais publicados estão locais como Japão, Coreia do Sul e México. No Japão, por exemplo, a influenciadora já compartilhou imagens relacionadas ao Monte Fuji e à Tokyo Disneyland.
Também aparecem viagens para destinos turísticos brasileiros, como Porto de Galinhas e Fernando de Noronha.
Essas publicações passaram a ser observadas com maior atenção após a operação, principalmente pelo contraste entre o padrão de vida exibido nas redes e o volume financeiro que a polícia afirma ter identificado durante a investigação.
Mais uma vez, porém, é preciso fazer uma distinção importante: viagens, festas caras ou patrimônio elevado não comprovam lavagem de dinheiro. A origem dos recursos é justamente uma das questões que a investigação pretende esclarecer.

A Operação Engodo Digital também investiga uma possível conexão com a Operação Narco Fluxo, conduzida pela Polícia Federal.
Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso, dois alvos da operação possuem endereços em São Paulo e podem ter ligação com pessoas ou estruturas já investigadas pela operação federal.
Uma empresa do setor financeiro que teria sido identificada na investigação da Polícia Federal também foi alvo de medidas em São Paulo nesta terça-feira.
A apuração da Narco Fluxo envolveu suspeitas relacionadas à movimentação financeira de plataformas clandestinas de apostas e envio de recursos ao exterior.
A eventual ligação entre os casos ainda deverá ser esclarecida pelas investigações.
A Operação Engodo Digital está na fase de investigação.
Isso significa que Natiele e os demais alvos são investigados, não condenados. O cumprimento de busca e apreensão ou a existência de bloqueios patrimoniais não significa, por si só, que os crimes investigados tenham sido comprovados judicialmente.
Agora, a Polícia Civil deverá analisar documentos, aparelhos eletrônicos, movimentações financeiras e demais materiais recolhidos para determinar a origem dos valores e a participação individual de cada investigado.
O Ministério Público também poderá analisar posteriormente o material produzido no inquérito e decidir sobre eventual oferecimento de denúncia.
Até o momento, a principal questão que permanece em aberto é justamente de onde vieram os mais de R$ 28 milhões apontados na investigação e como os valores teriam sido distribuídos entre pessoas e empresas.
A festa de mais de meio milhão de reais em um castelo, que em 2024 era apresentada como uma celebração de carreira, agora volta ao noticiário por estar associada à investigação sobre o patrimônio e a movimentação financeira de uma das pessoas alvos da operação.
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