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Olha a briga pela ponte

Ponte entre MT e MS pelo Pantanal divide setores e coloca turismo e logística em lados opostos

Uma ponte de concreto sobre o Rio São Lourenço, na região do Porto Jofre, em Poconé, está colocando diferentes setores ligados ao Pantanal em lados opostos. Enquanto o setor produtivo de Mato Grosso do Sul defende a ligação rodoviária com Mato Grosso, empresários e representantes do turismo mato-grossense se posicionam contra o projeto nos moldes atualmente discutidos e temem que a nova conexão transforme a Transpantaneira em uma rota de maior circulação de veículos e cargas.

A proposta prevê conectar o fim da MT-060, a Transpantaneira, em Porto Jofre, à MS-214, do lado sul-mato-grossense, criando a primeira ligação física entre os pantanais dos dois estados. O projeto vem sendo discutido pelos governos estaduais desde 2024 e ganhou uma etapa formal em fevereiro deste ano, com a publicação do Protocolo de Intenções nº 01/2026, firmado entre a Secretaria de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso (Sinfra-MT) e a Secretaria de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso do Sul (Seilog-MS).

O protocolo prevê a elaboração do projeto e a execução da ponte, além da implantação, por Mato Grosso do Sul, de um trecho rodoviário que dará acesso à futura travessia. O instrumento tem vigência de 48 meses e prevê a continuidade das tratativas entre os dois estados.

A ideia não surgiu agora. Em novembro de 2024, os dois governos já haviam realizado uma visita técnica para avaliar possíveis traçados. Na ocasião, a alternativa considerada mais viável previa uma ponte com aproximadamente 300 metros, com investimento estimado entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões, dividido entre os dois estados.

O objetivo oficial apresentado pelos governos é promover a integração dos dois pantanais e, ao mesmo tempo, fortalecer o ecoturismo. O próprio protocolo fala em criar um corredor rodoviário capaz de integrar Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e impulsionar o turismo na região.

É justamente aí que começa a divisão.

Em Mato Grosso, empresários ligados ao turismo no Pantanal argumentam que Porto Jofre já possui uma vocação econômica muito clara: o turismo de natureza e a observação de animais, especialmente de onças-pintadas. Para esse grupo, uma conexão permanente entre as duas regiões pode aumentar muito o movimento na Transpantaneira e trazer veículos que não necessariamente terão relação com o turismo.

Em março, mais de 20 entidades, entre organizações ambientais, representantes do ecoturismo, comunidades tradicionais e grupos ligados à conservação da fauna, divulgaram uma carta contrária à construção da ponte. O argumento central é que o aumento do fluxo de veículos poderia elevar o risco de atropelamento de animais e pressionar um dos principais destinos de turismo de vida silvestre do Pantanal.

O temor é que uma estrada criada originalmente como rota de acesso turístico passe a funcionar também como um corredor logístico, ampliando a circulação de caminhões e outros veículos pesados em uma área ambientalmente sensível.

Os grupos contrários defendem que qualquer avanço no projeto seja acompanhado de estudos de impacto ambiental, discussão pública e análise detalhada dos efeitos sobre a fauna, comunidades e economia turística da região.

A preocupação não é apenas ambiental. Para empresários que trabalham com pousadas, passeios e observação de animais, a mudança no perfil do tráfego poderia afetar justamente o produto que vende o Pantanal de Porto Jofre: a experiência de estar em uma região de natureza preservada.

No lado sul-mato-grossense, entretanto, a visão é bastante diferente.

Produtores e entidades empresariais defendem a retomada da implantação da MS-214, considerada fundamental para melhorar o acesso ao Pantanal do Paiaguás e conectar a região à futura ponte. Em reunião com representantes da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), o setor produtivo cobrou prioridade para a continuidade da rodovia.

A MS-214 faz parte de um projeto maior de aproximadamente 300 quilômetros, pensado para conectar a BR-163 até Porto Jofre. Segundo o governo sul-mato-grossense, a implantação da rodovia já vinha sendo executada em trechos desde 2021.

Para os defensores da ligação, a nova infraestrutura pode reduzir distâncias, facilitar deslocamentos entre os dois estados, beneficiar moradores e produtores e abrir uma nova rota turística dentro do Pantanal.

Há também uma diferença importante entre os objetivos atribuídos ao projeto. Mato Grosso apresenta a proposta principalmente como integração turística e regional, enquanto setores de Mato Grosso do Sul enxergam a melhoria da ligação rodoviária também como uma oportunidade de acesso e logística para áreas produtivas.

O debate chegou inclusive à Assembleia Legislativa de Mato Grosso. O deputado estadual Lúdio Cabral pediu ao Governo do Estado informações sobre o projeto, incluindo cópia integral do protocolo, estágio dos estudos, anteprojetos e informações sobre o licenciamento ambiental. A preocupação apresentada pelo parlamentar é justamente com a possibilidade de transformação da Transpantaneira em um corredor logístico.

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O assunto também ganhou um novo componente político nesta semana. O ex-governador e candidato ao Senado Mauro Mendes (União Brasil) declarou ser favorável à construção da ponte. Em entrevista à Rádio Verde FM, ele afirmou que a ligação poderia ampliar o turismo e gerar mais atividade econômica na região.

Mauro defendeu que a ponte venha acompanhada de investimentos em saneamento, abastecimento, pavimentação e estrutura turística, argumentando que o crescimento do número de visitantes exige preparação dos municípios.

O ex-governador também citou a substituição de antigas pontes de madeira da Transpantaneira por estruturas de concreto como exemplo de obras que, na sua avaliação, podem melhorar a circulação de moradores e turistas.

Para quem defende a obra, a lógica é que mais acesso pode significar mais turismo e, consequentemente, mais incentivo econômico para preservar a região. A avaliação de grupos contrários é justamente a inversa: sem regras rígidas sobre o novo fluxo, a mesma infraestrutura que leva turistas ao Pantanal também pode abrir espaço para uma circulação maior de veículos pesados e atividades que não estejam ligadas ao ecoturismo.

Por enquanto, a ponte ainda está em fase de projeto e articulação. O protocolo de intenções não significa que a estrutura esteja pronta para começar a ser construída imediatamente. Ainda há etapas técnicas, ambientais e administrativas a serem cumpridas, além da definição do projeto e dos procedimentos necessários para a execução.

O próprio pedido de informações feito na Assembleia mostra que ainda existem dúvidas sobre estudos, licenciamento e desenho definitivo da obra.

Também não é correto dizer que todo o setor produtivo dos dois estados esteja unido em um lado ou outro. O cenário é mais dividido: em Mato Grosso, o movimento contrário reúne principalmente segmentos do turismo, conservação e comunidades ligadas ao Pantanal; em Mato Grosso do Sul, produtores e representantes empresariais defendem a continuidade da rodovia e a integração.

No centro da discussão está uma pergunta que ainda não tem resposta definitiva: como integrar os dois lados do Pantanal sem transformar uma região conhecida pelo turismo de natureza em uma rota de tráfego pesado?

É justamente esse equilíbrio que deverá ser discutido nos próximos passos do projeto.

Para uns, a ponte pode finalmente aproximar dois estados separados pelo rio e criar uma nova rota turística. Para outros, ela pode abrir uma porta que o Pantanal não está preparado para receber.

Por enquanto, a ponte existe no projeto. A treta, essa já está bem concreta.