Ela mesma apertou o freio

A Vitória Sara Bezerra Lupatini, conhecida em Sorriso como “Sarinha da Toyota”, que até então era procurada pela Polícia Civil, se apresentou voluntariamente na delegacia nesta quinta-feira (27), um dia depois da deflagração da Operação Pátio Paralelo.
Ela era alvo de um mandado de prisão preventiva e é investigada por suspeita de participação em um esquema de desvio de veículos, fraudes em negociações comerciais, associação criminosa e lavagem de capitais que, segundo a Polícia Civil, teria movimentado aproximadamente R$ 50 milhões em apenas um ano.
A apresentação ocorreu acompanhada do advogado William Puhl. Segundo a defesa, Vitória decidiu se entregar depois de tomar conhecimento de que estava sendo procurada pela polícia. O delegado Thiago Meira, responsável pela investigação, informou que os policiais já tinham informações sobre o paradeiro dela e chegaram a cogitar uma abordagem, mas o advogado comunicou que ela seria apresentada na delegacia.
Após ser apresentada, Vitória permaneceu à disposição da Justiça.
A Operação Pátio Paralelo foi deflagrada na quarta-feira (26), em Sorriso, com mais de 20 ordens judiciais contra pessoas investigadas por um suposto esquema de desvio de veículos e valores.
Vitória era um dos principais alvos e tinha prisão preventiva decretada, mas não foi encontrada no momento em que os policiais cumpriram as medidas.
De acordo com o advogado, ela havia saído de casa para participar de uma entrevista de emprego e, posteriormente, soube que a polícia havia realizado a operação e que ela era considerada foragida. A defesa então passou a negociar a apresentação voluntária.
O delegado confirmou que os investigadores já tinham informações de que ela poderia estar no escritório do advogado e que a apresentação ocorreu antes de uma possível abordagem.
O episódio encerrou, pelo menos por enquanto, a busca pela investigada.
O advogado William Puhl informou que a defesa pretende ingressar com habeas corpus para tentar reverter a prisão preventiva.
Segundo ele, Vitória também deverá permanecer em silêncio durante o interrogatório, enquanto a defesa analisa integralmente o material produzido pela investigação e as provas reunidas pela Polícia Civil.
“Vamos entrar com habeas corpus, acompanhar o procedimento. Como não tivemos acesso a todo o material produzido, nesse momento ela irá permanecer em silêncio e vamos aguardar a decisão da Justiça”, afirmou o advogado.
O interrogatório estava previsto para esta sexta-feira (28), conforme informado pela defesa.
A estratégia é comum em situações nas quais o advogado ainda não teve acesso integral aos elementos do inquérito. Permanecer em silêncio é um direito do investigado e não significa, por si só, admissão de culpa.
Mesmo antes da prisão, Vitória já aparecia como uma das principais figuras da investigação.
Segundo a Polícia Civil, ela teria exercido uma posição central dentro do esquema investigado por atuar diretamente na captação dos clientes, condução das negociações, recebimento dos veículos usados, direcionamento dos pagamentos e movimentação dos recursos.
A investigação aponta que os suspeitos teriam usado a estrutura e a credibilidade de uma concessionária de Sorriso para atrair consumidores interessados em comprar veículos novos.
O esquema teria funcionado durante aproximadamente um ano.
A hipótese investigada é que clientes entregavam seus carros usados como parte da entrada na compra de outros veículos. Em vez de esses automóveis seguirem o fluxo normal da concessionária, porém, eles teriam sido encaminhados para outras garagens ligadas aos investigados.
Ao mesmo tempo, pagamentos que deveriam integrar a negociação também teriam sido direcionados para contas particulares ou de empresas relacionadas ao grupo.
A investigação aponta uma dinâmica especialmente complicada para as vítimas.
O consumidor procurava a concessionária, negociava a compra de um carro novo e entregava o veículo que já possuía como parte do pagamento.
Em tese, esse carro usado deveria ser considerado como entrada e seu valor abatido do negócio.
Segundo a Polícia Civil, entretanto, os veículos eram retirados do fluxo comercial regular e levados para outras garagens. Os valores pagos pelos clientes também teriam sido direcionados para contas que não pertenciam à concessionária.
O problema apareceria mais tarde.
Ainda conforme a investigação, algumas vítimas só perceberam a fraude quando verificaram documentos do financiamento ou constataram que o valor entregue como entrada não havia sido efetivamente abatido da dívida.
Ou seja, para o consumidor, a negociação aparentemente estava concluída. Só depois surgia a conta.
O número que mais chamou atenção na operação foi o volume financeiro atribuído ao grupo.
Segundo a Polícia Civil, os investigados teriam movimentado aproximadamente R$ 50 milhões em apenas um ano.
Esse valor representa a movimentação financeira atribuída ao conjunto investigado e não significa que R$ 50 milhões tenham sido necessariamente desviados ou que todo o montante corresponda a dinheiro ilícito.
A investigação ainda precisa identificar a origem, o destino e a natureza das operações.
No caso específico de Vitória, existe uma diferença importante entre os números divulgados pelas fontes:
A Polícia Civil informou que ela teria movimentado cerca de R$ 8 milhões em sua conta bancária pessoal durante o período analisado.
Já outras informações da investigação apontam que o conjunto de contas pessoais e jurídicas relacionadas a ela teria movimentado cerca de R$ 12 milhões entre maio de 2025 e julho de 2026.
Os dois valores não são necessariamente contraditórios: um se refere especificamente à conta pessoal citada pela polícia, enquanto o segundo considera movimentações mais amplas atribuídas a contas relacionadas à investigada.
A Polícia Civil afirma que já identificou entre 15 e 20 possíveis vítimas do esquema.
O prejuízo diretamente apurado até o momento ultrapassa R$ 2 milhões, mas os investigadores não descartam que esse valor aumente à medida que novas pessoas procurem a delegacia e apresentem documentos ou relatos sobre negociações semelhantes.
A própria concessionária é apontada como uma das principais vítimas do esquema, segundo a investigação.
Além dos consumidores, a empresa teria sofrido prejuízos porque sua estrutura e sua reputação teriam sido utilizadas para dar aparência de normalidade às negociações.
É justamente esse uso da credibilidade da empresa que fez a investigação avançar para além de uma simples fraude entre particulares.
Em linhas gerais, segundo a investigação, o esquema teria seguido esta sequência:
O cliente procurava a concessionária para comprar um veículo novo.
O usado era entregue como entrada, reduzindo o valor que deveria ser pago pela nova compra.
O veículo usado teria sido retirado do fluxo normal da concessionária e levado para outra garagem relacionada aos investigados.
O pagamento também poderia ser direcionado para contas particulares ou empresariais, em vez da conta oficial da empresa.
O problema aparecia depois, quando o consumidor percebia que o valor da entrada ou o veículo entregue não tinha sido contabilizado corretamente na negociação.
É essa suposta combinação de desvio de veículos e direcionamento de pagamentos que está no centro da Operação Pátio Paralelo.
A Justiça autorizou uma série de medidas para tentar reconstruir a estrutura financeira do grupo.
Foram expedidos sete mandados de busca e apreensão, nove ordens relacionadas ao acesso a informações bancárias e cinco medidas de bloqueio de ativos financeiros, além da prisão preventiva de Vitória e de outras determinações patrimoniais.
As equipes foram autorizadas a recolher celulares, computadores, notebooks, tablets, HDs, pendrives, cartões de memória, documentos, contratos, comprovantes de transferências e registros financeiros.
Também houve autorização para bloqueio e sequestro de bens até o limite de R$ 2 milhões.
A ideia é transformar todo esse material em uma espécie de mapa financeiro do esquema: descobrir quem recebia, quem transferia, onde os carros iam parar e quais pessoas ou empresas estavam conectadas às operações.
O nome escolhido para a operação também explica a principal suspeita.
Segundo a Polícia Civil, os veículos entregues pelos consumidores deveriam seguir o fluxo normal da concessionária, mas teriam sido desviados para um circuito paralelo de negociação.
Em vez de permanecerem no pátio e no sistema comercial oficial da empresa, esses carros teriam sido destinados a outras garagens relacionadas aos investigados.
Daí surgiu o nome Pátio Paralelo.
A operação, portanto, não investiga somente dinheiro.
Investiga também o caminho dos carros.
A prisão de Vitória não encerra a investigação.
O delegado Thiago Meira afirmou que os trabalhos continuam e que existem outras pessoas a serem investigadas. Segundo ele, celulares apreendidos e as informações bancárias que serão obtidas ao longo do processo devem ajudar a aprofundar a apuração.
A polícia também pretende identificar novas vítimas e descobrir o destino dos veículos que, segundo a investigação, teriam sido retirados das negociações regulares.
Isso significa que o número de envolvidos e o valor total dos prejuízos ainda podem mudar.
Com a apresentação voluntária, a ordem de prisão preventiva foi cumprida e Vitória ficou à disposição do Poder Judiciário.
A defesa deverá tentar derrubar ou substituir a prisão por outra medida cautelar por meio de habeas corpus.
O interrogatório e a análise das provas deverão ajudar a esclarecer a versão da investigada e confrontá-la com os elementos já reunidos pela Polícia Civil.
Outros suspeitos também já foram ouvidos e, segundo o delegado, negaram participação nos crimes.
A investigação continuará analisando documentos, aparelhos eletrônicos e movimentações bancárias.
Até que o processo avance, todas as suspeitas atribuídas a Vitória e aos demais investigados precisam ser tratadas como alegações em investigação, e não como condenações definitivas.
O que inicialmente poderia parecer uma série de problemas isolados em negociações de veículos ganhou outra dimensão quando os investigadores passaram a cruzar os dados comerciais com as movimentações bancárias.
O resultado foi uma investigação sobre um grupo que, segundo a polícia, teria encontrado dentro de uma concessionária o ambiente ideal para conquistar a confiança dos clientes e retirar veículos e dinheiro do caminho oficial.
Agora, com Vitória presa e os celulares, documentos e dados bancários sob análise, a próxima etapa é descobrir até onde ia o tal pátio paralelo.
A polícia já tem uma estimativa de movimentação de R$ 50 milhões, pelo menos 15 a 20 possíveis vítimas e mais de R$ 2 milhões em prejuízos diretamente identificados.
E a própria Polícia Civil avisa que os números podem crescer.
Por enquanto, a principal atualização do caso é direta:
a mulher que era procurada desde a operação se entregou.
Agora, em vez de procurar pela “Sarinha”, os investigadores têm pela frente outra tarefa:
descobrir onde foram parar os carros e os milhões.
Confira a reportagem anterior do MT24h sobre a Operação Pátio Paralelo: Polícia desarticula esquema de R$ 50 milhões com desvio de veículos e fraude em concessionária de Sorriso