fogo cruzado

O primeiro debate televisivo entre candidatos ao Senado por Mato Grosso foi marcado por confrontos diretos, acusações e provocações entre os participantes. O encontro da TV Vila Real, realizado nesta quinta-feira (17), reuniu Carlos Fávaro (PSD), Antônio Galvan (Avante), José Medeiros (PL), Margareth Buzetti (PP) e Pedro Taques (PSB).
O programa teve duas horas de duração, divididas em quatro blocos, com perguntas entre os próprios candidatos. Mauro Mendes (União) e Janaina Riva (MDB) não participaram. Ao longo do debate, Fávaro foi alvo de cobranças principalmente de Galvan e Medeiros, especialmente por sua relação com o governo Lula e sua atuação como ministro da Agricultura.
Um dos momentos mais comentados ocorreu quando Galvan questionou Fávaro sobre o combate à fome e os recursos enviados a Mato Grosso. O candidato do Avante ironizou uma declaração de Lula e ainda cobrou comprovação dos números apresentados pelo senador sobre emendas e ambulâncias.
“Não sei, veio a picanha? […] Trouxe comprovação disso, candidato e senador Carlos Fávaro, para a gente poder acreditar?”
Fávaro respondeu afirmando que a saída do Brasil do Mapa da Fome foi reconhecida pela FAO, agência da ONU, e responsabilizou o governo Jair Bolsonaro pelo período em que o país voltou a figurar no indicador. A FAO confirmou que o Brasil voltou a ficar abaixo do limite de 2,5% de prevalência de subalimentação no triênio 2022-2024 e deixou novamente o Mapa da Fome em 2025.
Na sequência, Fávaro afirmou ter destinado R$ 4 bilhões aos 142 municípios de Mato Grosso e citou as ambulâncias utilizadas como exemplo de recursos encaminhados ao Estado. Galvan contestou o valor, dizendo que o senador teria falado anteriormente em R$ 5 bilhões.
Fávaro negou e respondeu com outra provocação:
“Talvez o senhor esteja com problema de audição. Tenha mais respeito a essa TV e ao debate sério.”
O senador ainda afirmou que os dados sobre os recursos estão disponíveis para consulta e declarou ter levado verbas para todos os municípios mato-grossenses.
As discussões sobre o Supremo Tribunal Federal e Alexandre de Moraes apareceram em vários momentos. Medeiros questionou Fávaro sobre um eventual impeachment de Moraes. O senador afirmou que o ministro deveria ter se afastado para ser investigado e defendeu que o Senado analise pedidos de impeachment.
Medeiros, porém, contestou a posição do adversário e afirmou que Fávaro teria retornado ao Senado em uma sessão relacionada a uma CPMI envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A acusação foi rebatida por Fávaro, que afirmou não integrar a comissão e explicou que voltou ao Senado para votar uma medida provisória relacionada ao piso mínimo do frete rodoviário.
Medeiros também acusou Fávaro de ter se aproximado do MST e do governo Lula.
“O senador tem andado em ônibus verde e amarelo, mas quando chega ao evento coloca o boné do MST.”
Em outro momento, Galvan afirmou que Fávaro teria “partido para o colo de Lula” e que não teria cumprido um compromisso político com Jair Bolsonaro. Fávaro respondeu que nunca recebeu apoio de Bolsonaro em suas eleições para o Senado e afirmou que vota de acordo com o que considera melhor para o país.
O confronto ganhou outro capítulo quando Fávaro devolveu a acusação de “melancia”, expressão usada por Medeiros contra adversários que considera alinhados à direita apenas no discurso.
Fávaro citou o primeiro suplente de Medeiros, Odílio Balbinotti Filho, e lembrou que o pai dele havia sido escolhido por Lula para o Ministério da Agricultura em 2007, embora não tenha assumido o cargo.
“Ele é melancia? O senhor foi senador por um partido de esquerda. O senhor também é melancia? O senhor planta melancia?”
Medeiros respondeu que cada pessoa deve responder pela própria trajetória e criticou a utilização do histórico político do pai de seu suplente.
“Cada um responde pelo seu CPF.”
Na sequência, Medeiros voltou a atacar Fávaro e afirmou que quem pede votos ao agricultor e depois se aproxima do MST seria, em sua definição, “melancia”. Fávaro então afirmou que Antônio Galvan seria o verdadeiro representante da direita na disputa e questionou o posicionamento político de Medeiros.
Outro embate começou quando Fávaro criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante uma discussão sobre relações comerciais e diplomáticas. O senador classificou Trump como “psicopata” e disse que ele tenta ampliar sua influência por meio de tarifas e conflitos.
Medeiros retomou a fala e perguntou a Galvan o que achava da declaração. Galvan saiu em defesa do presidente norte-americano e afirmou:
“Esse mundo precisa alguém para moralizá-lo.”
Na mesma resposta, Galvan afirmou que a pandemia de Covid-19 teria sido “criada” e “fabricada”. Essa alegação não é sustentada pelas evidências científicas disponíveis. A origem exata do vírus ainda não foi estabelecida de maneira definitiva, mas a OMS informou em 2025 que o conjunto das evidências disponíveis favorecia a hipótese de transmissão zoonótica, sem descartar a necessidade de investigação sobre outras possibilidades.
A segurança pública também gerou confronto. Margareth Buzetti questionou Galvan sobre medidas contra pedófilos e estupradores e citou o cadastro nacional de predadores sexuais criado a partir de uma lei de sua autoria. Galvan defendeu punições mais duras e, posteriormente, afirmou ser favorável à castração de condenados por estupro.
Fávaro ainda cobrou Galvan sobre declarações relacionadas a feminicídio e perguntou quantos homens haviam sido mortos por mulheres em Mato Grosso nos últimos quatro anos. Galvan admitiu não ter o número e voltou a questionar emendas e o STF.
Fávaro respondeu citando 193 mulheres assassinadas em Mato Grosso entre 2022 e 2025, segundo dados oficiais de segurança pública, e afirmou:
“Não se trata de ideologia defender as mulheres, de direita ou esquerda, tenha compostura.”
Margareth Buzetti questionou Pedro Taques sobre o funcionamento do Senado e os pedidos de impeachment de ministros do Supremo. Taques defendeu uma mudança no regimento para obrigar a Presidência da Casa a responder, em até 30 dias, sobre esses pedidos.
Buzetti criticou o que chamou de tentativa de “blindagem” de Alexandre de Moraes:
“E conseguiram blindar ele e bagunçaram tudo.”
Taques respondeu classificando a atuação recente do Supremo como “nojenta” e afirmou:
“Não tenho ministro do Supremo de estimação.”
No encerramento, os candidatos reforçaram posições diferentes. Fávaro voltou a destacar os recursos enviados aos municípios e afirmou não ter relação com Daniel Vorcaro. Galvan criticou a atuação dos atuais senadores. Taques falou em combate à corrupção e mudanças no Senado. Buzetti criticou o excesso de acusações durante o debate e disse ter priorizado propostas.
Medeiros encerrou reafirmando sua ligação com Jair Bolsonaro e suas posições sobre anistia e impeachment de ministros do STF.
“Sou o candidato indicado por Bolsonaro aqui em Mato Grosso, tenho defendido a anistia […] e tenho defendido impeachment e prisão de Moraes.”
O debate terminou com os cinco candidatos tendo exposto posições distintas sobre governo federal, STF, agronegócio, segurança, política externa e atuação no Senado, em um encontro marcado mais pelos confrontos pessoais e políticos do que por uma discussão concentrada em propostas administrativas.