Operação Falso 9

Um homem suspeito de se passar pelo técnico do Grêmio, Luís Castro, foi preso nesta quarta-feira (2), em Itaperuna, no Rio de Janeiro, durante a Operação Falso 9, investigação conduzida pelas polícias civis do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro.
Segundo as investigações, o suspeito utilizava uma foto do treinador no WhatsApp e um número de telefone com prefixo do Rio para convencer jogadores de que estavam conversando diretamente com o comandante gremista.
A estratégia funcionou com pelo menos uma vítima. O atacante colombiano José Enamorado, do Grêmio, acreditou que estava falando com Luís Castro e transferiu cerca de R$ 22 mil via Pix para uma conta indicada pelo golpista.
O dinheiro teria sido solicitado sob a justificativa de financiar a compra de cestas básicas para um suposto projeto social no Rio de Janeiro.
O caso foi descoberto depois que outros jogadores receberam mensagens semelhantes e começaram a desconfiar da identidade do suposto treinador.
A investigação aponta que o suspeito não começava a abordagem pedindo dinheiro imediatamente.
Primeiro, ele procurava estabelecer uma relação de confiança com os atletas.
Com José Enamorado, o contato durou vários dias. O falso treinador conversava sobre rotina, família, desempenho nos treinamentos e dedicação do jogador.
Em determinado momento, segundo a investigação, o suspeito pediu que o atleta não comentasse a conversa com os demais companheiros.
O pedido de sigilo ajudaria a manter o jogador isolado e impediria que ele descobrisse rapidamente que outros colegas também estavam recebendo mensagens.
Somente depois dessa aproximação veio o pedido financeiro.

Quando conseguiu estabelecer confiança, o homem afirmou que ajudava um grupo social ligado a um projeto de futebol amador no Rio de Janeiro.
A proposta apresentada a Enamorado era aparentemente simples: contribuir para a compra de 300 cestas básicas, cada uma no valor de R$ 75.
A conta apresentada pelo golpista chegava a R$ 22,5 mil.
Ele então enviou uma chave Pix que, segundo a versão apresentada ao jogador, pertenceria a uma responsável pela instituição beneficiada.
A primeira tentativa de transferência não foi concluída por causa do limite diário de movimentação bancária.
O golpista, porém, não desistiu.
Ele remarcou o pagamento para o dia seguinte e voltou a pedir que o jogador mantivesse o contato em segredo.
Na manhã seguinte, o Pix foi realizado.
Depois de receber o dinheiro, o suspeito ainda teria enviado uma suposta confirmação de que a doação havia sido recebida e que as cestas seriam destinadas ao projeto social, reforçando a aparência de legitimidade da fraude.
O golpe poderia ter causado um prejuízo ainda maior.
No mesmo dia em que recebeu os cerca de R$ 22 mil, o falso Luís Castro teria contado ao jogador que outro atleta, supostamente fora do Brasil, também queria participar da doação.
Dessa vez, seriam 600 cestas básicas, em um valor estimado de R$ 50 mil.
O suspeito pediu que Enamorado adiantasse a quantia, com a promessa de que posteriormente seria ressarcido.
Para convencer a vítima, ainda teria mencionado a participação de outros jogadores.
A segunda transferência, entretanto, não aconteceu porque o valor novamente ultrapassaria o limite disponível para movimentação.
Foi justamente nesse ponto que o esquema deixou de avançar.
Outro jogador do Grêmio procurado pelo falso treinador foi o zagueiro Walter Kannemann.
A abordagem, neste caso, teve um detalhe que ajudou a levantar a suspeita.
O suposto Luís Castro enviou uma mensagem determinando que o jogador chegasse mais cedo ao Centro de Treinamento do Grêmio para conversar.
Kannemann estranhou a orientação e decidiu confirmar a informação.
A checagem revelou que a comissão técnica não havia feito aquele pedido.
A partir daí, os jogadores e as autoridades passaram a perceber que havia alguém utilizando a identidade do treinador para entrar em contato com integrantes do futebol.
O esquema também teria ultrapassado as fronteiras do Grêmio.
Segundo as investigações, Andrés D’Alessandro, ex-jogador e ídolo do Internacional, também recebeu contato do número utilizado pelo suspeito.
No caso do argentino, a abordagem não resultou em pagamento.
Outros atletas e personalidades ligados ao futebol brasileiro, além de pessoas relacionadas a um clube europeu e um artista de projeção nacional, também apareceram entre os possíveis alvos do grupo.
A suspeita é de que os criminosos faziam um levantamento prévio de possíveis vítimas e usavam figuras conhecidas do futebol para construir uma aparência de legitimidade.
Um dos elementos que podem ter facilitado a fraude é justamente a familiaridade do investigado com o ambiente esportivo.
De acordo com as informações da investigação, o suspeito já teve passagem por categorias de base de clubes de futebol.
Esse conhecimento ajudaria a utilizar linguagem, termos e assuntos comuns do dia a dia dos atletas.
A estratégia ia além de simplesmente copiar uma fotografia.
O golpista procurava conversar como alguém que conhecia a rotina dos jogadores, fazia elogios e criava uma relação progressiva antes de apresentar o pedido de dinheiro.
As autoridades também investigam o caminho percorrido pelos valores recebidos com os golpes.
Segundo a apuração, parte do dinheiro seria movimentada por contas bancárias de terceiros, incluindo moradores de Itaperuna.
O objetivo, conforme a investigação, seria dificultar a identificação da origem e do destino dos valores obtidos.
A análise das movimentações financeiras e dos meios de comunicação utilizados pelos suspeitos ajudou os investigadores a reconstruir parte da estrutura usada para praticar as fraudes.
A Operação Falso 9 foi realizada em conjunto por equipes da Polícia Civil do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro.
Nesta quarta-feira, os agentes cumpriram um mandado de prisão preventiva e dois mandados de busca e apreensão em Itaperuna.
O principal investigado foi preso e é investigado por estelionato mediante fraude eletrônica e falsa identidade.
Durante a ação, também foram apreendidos materiais que poderão ajudar no avanço da apuração.
A prisão ocorreu poucos meses depois de o golpe contra Enamorado, que transferiu o dinheiro acreditando estar ajudando uma ação social indicada pelo próprio treinador.
O valor transferido ainda não havia sido recuperado, segundo as informações divulgadas sobre o caso.

O nome escolhido para a operação também é uma provocação futebolística.
No futebol, “falso 9” é o nome dado ao jogador que atua em uma função diferente daquela esperada de um centroavante tradicional, recuando para participar da construção das jogadas.
No caso investigado, a expressão foi utilizada como referência ao suspeito, que também exercia uma identidade diferente daquela que realmente possuía.
Ele não era Luís Castro, não fazia parte da comissão técnica do Grêmio, mas tentou ocupar justamente esse papel nas conversas com os jogadores.
O caso chamou atenção porque os alvos eram pessoas acostumadas a lidar diariamente com empresários, dirigentes, treinadores, assessores e outros profissionais por aplicativos de mensagens.
Ainda assim, a abordagem foi construída de forma gradual.
Em vez de simplesmente pedir dinheiro, o suspeito primeiro simulava uma conversa pessoal e profissional, fazia perguntas sobre a rotina do atleta, demonstrava conhecimento sobre futebol e só depois apresentava o pedido financeiro.
A estratégia tinha ainda um componente psicológico importante: o pedido de sigilo.
Ao tentar impedir que o jogador compartilhasse a conversa com os companheiros, o golpista reduzia a possibilidade de que alguém identificasse a fraude rapidamente.
No caso de Enamorado, o esquema funcionou até a primeira transferência. No caso de Kannemann, a desconfiança apareceu antes que houvesse prejuízo.
E, quando as mensagens chegaram a outros nomes do futebol, a falsa identidade começou a ser desmontada.
No fim, o verdadeiro Luís Castro ficou apenas com a foto usada no perfil do golpista. O Pix, esse sim, foi bem real.