Pediu engajamento, recebeu mandado

Um jovem de 19 anos, investigado por atuar na divulgação de conteúdos de uma organização criminosa nas redes sociais, foi preso na manhã desta quinta-feira (3), em Juscimeira, a cerca de 160 quilômetros de Cuiabá. A prisão ocorreu durante a Operação Death List, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), com apoio da Polícia Militar de Mato Grosso.
O preso foi identificado como Pablo da Silva Santos. Contra ele havia um mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça de Mato Grosso do Sul. Segundo as investigações, Pablo seria responsável por administrar perfis utilizados para divulgar conteúdos relacionados ao Comando Vermelho (CV) e expor pessoas apontadas pela própria organização como integrantes ou simpatizantes do grupo rival, o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A investigação chamou atenção principalmente pela utilização das redes sociais para ampliar ameaças e demonstrar suposto controle territorial da facção. Os conteúdos analisados pelos investigadores incluíam nomes, fotografias, apelidos e cidades de pessoas apresentadas como “decretadas” para morrer.
A prisão faz parte da Operação Death List, conduzida pela Unidade de Investigação de Crimes Cibernéticos (UICC) do MPMS.
O procedimento investiga a criação e divulgação de listas com pessoas nominalmente identificadas como alvos de execução. Conforme o Ministério Público, as publicações eram utilizadas para intimidar pessoas e reforçar, no ambiente virtual, a imagem de domínio territorial de uma organização criminosa.
A maioria dos nomes identificados nas listas estaria ligada a municípios do interior de Mato Grosso do Sul, especialmente localidades situadas em regiões de fronteira e no interior do Estado.
A ação desta quinta-feira contou com o cumprimento de mandado de prisão e ordens de busca e apreensão em Juscimeira, no sul de Mato Grosso.
Segundo a investigação, Pablo estaria por trás de perfis utilizados para propagar a ideologia do Comando Vermelho, além de publicar conteúdos que exaltavam a presença e o avanço territorial da organização em municípios sul-mato-grossenses.
Os investigadores também identificaram a relação do suspeito com conteúdos publicados em plataformas como TikTok e Instagram.
De acordo com o MPMS, mesmo depois de apagar contas e tentar eliminar rastros digitais, o investigado acabou sendo identificado por meio do cruzamento de informações e da análise técnica realizada pela equipe especializada em crimes cibernéticos.
A apuração ainda tenta descobrir se Pablo utilizava apenas um perfil ou se mantinha outros nomes e contas para divulgar o material.
Um dos pontos mais graves da investigação é que duas pessoas expostas nas publicações acabaram assassinadas posteriormente, segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
Em um dos casos, uma das pessoas mencionadas nas publicações foi morta juntamente com uma criança de três anos.
O episódio ocorreu em Cassilândia (MS), onde Márcio Aparecido da Silva Filho, de 27 anos, e uma menina de três anos foram mortos a tiros dentro de um veículo no início de agosto. Outra criança que estava no carro também foi atingida e sobreviveu.
O vínculo entre a publicação e os assassinatos é justamente um dos elementos que tornam a investigação sobre as chamadas “listas de morte” mais grave. A exposição de pessoas nas redes, porém, não significa automaticamente que o responsável pelo perfil tenha ordenado ou participado diretamente das execuções. Essa relação ainda faz parte da apuração do caso.

Durante o cumprimento das ordens judiciais em Juscimeira, foram apreendidos aparelhos celulares.
Os equipamentos serão submetidos à extração de dados e análise forense, respeitando a cadeia de custódia. O objetivo é buscar novas informações sobre os perfis utilizados, contatos, publicações, possíveis colaboradores e eventual ligação do investigado com outros integrantes da organização criminosa.
Esse material poderá ser utilizado para ampliar a investigação e identificar outras pessoas que eventualmente tenham participado da produção ou divulgação dos conteúdos.
O Ministério Público informou que os fatos investigados podem configurar, em tese, o crime de favorecimento ao domínio social estruturado, previsto na Lei nº 15.358/2026, conhecida como Marco Legal do Combate ao Crime Organizado.
A legislação foi sancionada em março deste ano e passou a tipificar condutas relacionadas à atuação de organizações criminosas ultraviolentas e ao favorecimento de seu domínio sobre territórios e comunidades.
Segundo o MPMS, esse crime tem pena prevista de 12 a 20 anos de reclusão e natureza hedionda. O investigado também é apurado por ameaça em contexto faccional e organização criminosa.
Como se trata de investigação em andamento, o enquadramento jurídico poderá sofrer alterações conforme o avanço das apurações e a análise do material apreendido.
Para o Ministério Público, a operação evidencia uma mudança na forma como organizações criminosas utilizam a internet.
Além dos confrontos e crimes praticados no mundo físico, as facções passaram a utilizar redes sociais para ameaçar rivais, divulgar execuções, exibir suposto controle territorial e disseminar mensagens de intimidação.
O órgão afirma que o combate a esse tipo de conteúdo passou a integrar as estratégias de investigação justamente porque as redes podem ampliar rapidamente o alcance das ameaças.
No caso investigado, as publicações não seriam apenas manifestações de apoio à facção. Segundo o MPMS, elas apresentavam pessoas identificadas como alvos e associavam essas informações a uma ordem de morte atribuída ao grupo criminoso.
O Ministério Público também fez um alerta para quem recebe esse tipo de conteúdo.
A orientação é não compartilhar listas de execução, montagens ou publicações que indiquem pessoas como alvos, mesmo quando a intenção for alertar amigos ou familiares.
De acordo com o órgão, a republicação ajuda a ampliar o alcance das ameaças, espalha pânico e pode até colocar outras pessoas em situação de risco.
Denúncias sobre perfis desse tipo podem ser encaminhadas de forma anônima à Ouvidoria do MPMS ou comunicadas às forças de segurança.
Embora a investigação esteja sendo conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, o suspeito foi encontrado em Juscimeira, em Mato Grosso.
A localização foi possível a partir do trabalho de inteligência desenvolvido pela equipe responsável pela investigação. Após a identificação do endereço, as autoridades sul-mato-grossenses solicitaram apoio da Polícia Militar de Mato Grosso para cumprir a ordem judicial.
Pablo foi preso e encaminhado às autoridades competentes para os procedimentos legais.
O caso continua em investigação, especialmente para esclarecer a extensão da atuação do suspeito, identificar outros perfis ou envolvidos e verificar o alcance das publicações feitas na internet.
Por trás de uma tela, segundo a investigação, havia uma estrutura usada para ameaçar pessoas e exibir poder de uma facção. Agora, celulares e dados digitais apreendidos podem ajudar os investigadores a descobrir até onde essa rede chegava.