Pulou do barco

O prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira (PL), decidiu colocar o apoio político em letras garrafais: durante um evento ao lado do governador Otaviano Pivetta (Republicanos), declarou que seu candidato ao Governo de Mato Grosso será o atual chefe do Executivo estadual.
E Cláudio já sabia que a declaração poderia causar dor de cabeça.
“O meu candidato a governador é Otaviano Pivetta. Eu sei que vou pagar o preço, porque ele não faz parte do meu partido”, afirmou o prefeito.
A frase foi dita durante evento político realizado em Rondonópolis na quinta-feira (27), quando Cláudio subiu ao palanque de Pivetta e deixou publicamente de lado a candidatura do senador Wellington Fagundes, que é justamente o nome lançado pelo PL para disputar o Governo de Mato Grosso.
O movimento coloca o prefeito em uma situação politicamente delicada: ele permanece filiado ao PL, mas decidiu apoiar um adversário do candidato oficial da própria legenda.
E, ao contrário de quem faz campanha nos bastidores e tenta evitar a exposição, Cláudio fez questão de avisar que sabe do risco.
A justificativa apresentada pelo prefeito foi de que sua decisão não deveria ser determinada exclusivamente pela legenda.
Depois de afirmar que apoiará Pivetta, Cláudio argumentou que os partidos devem servir aos interesses da população, e não o contrário.
“Os partidos existem para as pessoas. Não são as pessoas que existem para os partidos”, declarou.
Na sequência, afirmou que sua escolha está baseada na avaliação que faz da trajetória e da atuação de Pivetta no setor público.
Segundo Cláudio, a experiência adquirida desde que assumiu a Prefeitura de Rondonópolis fez com que passasse a observar de maneira diferente o trabalho desenvolvido pelo governador.
“Servir as pessoas com generosidade e empatia é o que me faz apoiar o senhor. É por isso que eu apoio o senhor”, afirmou.
A declaração reforça que, para o prefeito, o apoio não seria apenas uma questão de alinhamento político, mas uma decisão baseada na avaliação da gestão de Pivetta.
A situação fica mais curiosa quando se olha para a configuração da disputa de 2026.
O PL possui candidatura própria ao Governo de Mato Grosso, com o senador Wellington Fagundes.
O partido já havia reafirmado oficialmente a candidatura de Wellington e descartado uma composição com Pivetta. Em junho, o PL publicou uma nota assinada pelo presidente nacional Valdemar Costa Neto e pelo presidente estadual Ananias Filho, reafirmando Wellington e encerrando as especulações sobre uma aliança com o governador.
Ou seja, a decisão de Cláudio não acontece em um cenário de indefinição dentro da legenda.
O PL tem candidato.
E o prefeito do PL acaba de anunciar que vai trabalhar para o candidato de outra legenda.
O movimento de Cláudio também não surgiu do nada.
Desde o começo da corrida eleitoral, o apoio de prefeitos do PL a Pivetta vem provocando atritos internos.
No início de agosto, informações de bastidores davam conta de que Wellington Fagundes estaria articulando, junto à direção nacional do partido, a expulsão de prefeitos do PL que haviam aderido ao projeto de reeleição de Pivetta.
Entre os nomes citados estavam justamente Cláudio Ferreira, além de Abilio Brunini, prefeito de Cuiabá; Edilson Piaia, de Campo Novo do Parecis; e Sérgio Machnic, de Primavera do Leste.
A ameaça de punição, portanto, já fazia parte do ambiente político antes da declaração desta semana.
Agora, Cláudio colocou mais combustível na discussão.
A frase escolhida pelo prefeito não foi por acaso.
Ao declarar apoio a Pivetta, Cláudio demonstrou ter consciência de que poderá sofrer consequências dentro da legenda.
“Eu sei que vou pagar o preço”, repetiu durante o discurso.
Não há, contudo, uma decisão pública confirmando neste momento uma eventual expulsão de Cláudio.
A consequência política dependerá da direção partidária e das regras internas do PL.
O que está confirmado é que o prefeito assumiu publicamente uma posição contrária à orientação eleitoral da legenda.
E fez isso justamente ao lado de Pivetta.
Durante o discurso, o prefeito não se limitou a anunciar o voto.
Ele fez uma defesa bastante elogiosa da trajetória política de Pivetta.
Cláudio lembrou que o atual governador já foi prefeito de Lucas do Rio Verde, deputado estadual e vice-governador de Mato Grosso durante a gestão de Mauro Mendes.
O prefeito destacou principalmente o período em que Pivetta ocupou a Vice-Governadoria.
“Para ser um vice, você tem que ser melhor que o titular. Porque você tem que saber ser vice e, se faltar o titular, você tem que substituir”, afirmou.
Na avaliação de Cláudio, Pivetta teria desempenhado esse papel com humildade e firmeza.
“O senhor soube com humildade, modéstia e firmeza ser um vice como ninguém”, completou.
Cláudio afirmou ainda que sua percepção sobre Pivetta mudou depois que ele próprio passou a comandar uma prefeitura.
Segundo o prefeito, viver a rotina de uma administração municipal fez com que passasse a compreender melhor as dificuldades enfrentadas pelos gestores e, consequentemente, a valorizar a experiência acumulada pelo governador.
“A experiência na vida pública me fez respeitar mais o senhor pelo grande vice-governador que o senhor foi e pelo governador que tem sido”, afirmou.
Cláudio também classificou Pivetta como “diligente” e “solícito” e o elogiou por, segundo sua avaliação, não agir com vaidade.
“Pensou em fazer e não puxar a sardinha para o umbigo do senhor”, disse.
O discurso mostra que a aproximação entre os dois não é apresentada pelo prefeito como uma decisão de última hora.
Ele tenta justificar o apoio justamente pela relação institucional e pela avaliação que fez da atuação de Pivetta ao longo do tempo.
A declaração também é relevante para o projeto eleitoral de Wellington Fagundes.
O senador construiu sua candidatura ao Governo com o respaldo da direção do PL e de lideranças do campo conservador.
Em março, inclusive, Wellington afirmou ter recebido o apoio do então ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar o Governo e relatou que Bolsonaro defendia a união da direita em Mato Grosso em torno de sua candidatura.
Apesar desse respaldo, a candidatura enfrenta uma situação curiosa dentro do próprio partido: alguns prefeitos filiados ao PL optaram por apoiar Pivetta.
Cláudio é agora mais um nome de peso a tornar essa escolha pública.
E fez isso justamente em Rondonópolis, uma das principais cidades de Mato Grosso.
A decisão tem importância adicional por causa do tamanho político e econômico de Rondonópolis.
Cláudio não é apenas um filiado do PL manifestando preferência individual.
Ele é o prefeito de uma das cidades mais importantes do Estado e possui uma estrutura política própria.
Um apoio desse tamanho pode gerar repercussão na formação dos palanques regionais e na disputa pelo voto no sul de Mato Grosso.
É justamente por isso que o gesto deve ser observado além da frase de efeito.
O prefeito está sinalizando ao eleitorado de Rondonópolis e à sua base política que pretende caminhar com Pivetta.
Para Pivetta, o episódio representa um reforço político importante.
O governador, que disputa a reeleição pelo Republicanos, conseguiu colocar ao seu lado justamente um prefeito filiado ao partido adversário.
E não foi um apoio discreto.
Cláudio subiu ao palco, discursou e declarou nominalmente quem considera seu candidato.
Esse tipo de movimento ajuda Pivetta a apresentar uma imagem de capacidade de diálogo além das fronteiras partidárias.
Também reforça a tese de que a disputa pelo Governo não necessariamente seguirá uma divisão rígida entre as legendas.
Apesar da justificativa de Cláudio de que partidos devem servir às pessoas, a direção do PL mantém seu próprio projeto eleitoral.
A legenda já declarou apoio à candidatura de Wellington Fagundes e vem trabalhando para consolidar o senador como seu nome ao Governo.
Isso significa que o conflito não está encerrado.
A direção partidária poderá avaliar se o apoio de Cláudio configura uma violação de orientações internas e se haverá alguma medida contra o prefeito.
Até o momento, entretanto, o principal fato é político: Cláudio declarou seu voto publicamente e assumiu o risco de contrariar a própria legenda.
A possibilidade já foi levantada anteriormente em relação a prefeitos do PL que apoiam Pivetta, mas não há, nas informações públicas consultadas, uma decisão de expulsão contra Cláudio decorrente desta declaração.
O próprio histórico recente mostra que o assunto vem sendo discutido dentro da legenda.
Em agosto, Wellington foi apontado como articulador de medidas contra prefeitos que haviam aderido a Pivetta, incluindo Cláudio.
Agora, com a declaração feita publicamente, o prefeito deixa ainda menos espaço para uma interpretação de que seu apoio seria apenas uma movimentação de bastidor.
Ele colocou o nome de Pivetta no centro do próprio discurso.
O cenário eleitoral também ajuda a explicar a importância da movimentação.
Pesquisa Quaest divulgada em 25 de agosto mostrou Wellington Fagundes com 27% das intenções de voto, contra 23% de Otaviano Pivetta. Como a margem de erro é de três pontos percentuais, os dois aparecem tecnicamente empatados.
Nesse contexto, apoios regionais podem ganhar ainda mais peso.
Especialmente quando vêm de prefeitos de grandes municípios.
A pesquisa, entretanto, não mede especificamente o efeito do apoio de Cláudio sobre o eleitorado de Rondonópolis. Portanto, qualquer conclusão sobre eventual transferência de votos seria prematura.
O mais marcante no discurso é que Cláudio não apresentou sua decisão como algo provisório.
Ele reconheceu a possibilidade de punição, explicou sua escolha e manteve o apoio.
A mensagem foi basicamente esta:
o partido tem seu candidato, mas o prefeito tem o seu.
E o candidato do prefeito é Pivetta.
Agora resta saber qual será a resposta da direção do PL.
Por enquanto, Cláudio Ferreira continua prefeito de Rondonópolis e filiado ao PL, enquanto Pivetta ganhou oficialmente mais um aliado de dentro da legenda adversária.
A política de Mato Grosso, pelo visto, entrou naquela fase em que o partido escolhe um candidato, o prefeito escolhe outro e alguém inevitavelmente vai ter que fazer as contas depois.
E Cláudio já avisou que sabe qual pode ser a conta:
“Vou pagar o preço.”