Carta fora do baralho

A tentativa de deixar Mato Grosso acabou interrompendo os planos de um casal apontado pela Polícia Civil como liderança de um esquema de fraude envolvendo cartas de crédito e suposta liberação de financiamento. Os dois foram presos na tarde de quinta-feira (3), no Aeroporto de Sinop, no norte de Mato Grosso, pouco antes de embarcarem em uma viagem com destino a Bariloche, na Argentina.
Os presos foram identificados como Mariana Espindola Padilha dos Santos e Vitor Hugo Neves Marques. A dupla é investigada por participar de um esquema que teria feito mais de 50 vítimas em Sinop e Sorriso desde 2022.
A prisão no aeroporto ocorreu depois que os investigadores descobriram que o casal, apontado como responsável pela liderança do grupo, havia comprado passagens para deixar o Brasil. Por causa do risco de fuga, a Polícia Civil antecipou a operação e mobilizou as equipes para impedir o embarque.
Ao todo, foram cumpridos sete mandados de prisão e 11 mandados de busca e apreensão. A Justiça também determinou o sequestro de dois veículos, o bloqueio de seis contas bancárias e a retirada do ar de um site e de perfis em redes sociais ligados à empresa investigada.
A operação estava programada para uma data posterior, segundo a Polícia Civil, mas acabou sendo antecipada depois que os investigadores descobriram a viagem internacional planejada pelo casal.
Mariana e Vitor foram localizados dentro do Aeroporto de Sinop, ainda antes do embarque.
Enquanto a prisão ocorria no terminal, outras equipes cumpriam ordens judiciais em imóveis e escritórios relacionados aos investigados nas cidades de Sinop e Sorriso.
No fim da operação, todos os sete alvos dos mandados de prisão foram encontrados e presos.
O caso agora entra em uma nova fase, com análise dos documentos, movimentações financeiras e demais materiais recolhidos.
Segundo a investigação, o grupo começou a atuar em 2022, utilizando escritórios para captar clientes em Sinop e Sorriso.
A principal forma de atração ocorria por meio das redes sociais, onde eram divulgadas ofertas de crédito para pessoas interessadas principalmente na compra de imóveis.
A promessa apresentada aos clientes era de que seria possível obter o valor necessário para adquirir o imóvel depois do pagamento de uma entrada.
Em alguns casos, conforme a investigação, os clientes eram informados de que o dinheiro seria disponibilizado em aproximadamente 90 a 120 dias.
A expectativa criada era de que o consumidor conseguiria o crédito para realizar a compra planejada.
O problema aparecia quando o prazo passava.
Segundo os relatos reunidos pela polícia, o dinheiro prometido não era liberado.
Quando os clientes procuravam os responsáveis para saber por que o dinheiro não havia sido disponibilizado, encontravam uma situação diferente daquela apresentada inicialmente.
De acordo com a investigação, em vez de terem contratado um financiamento ou recebido a promessa de crédito imediato, algumas vítimas descobriam que haviam sido colocadas em contratos relacionados a cartas de crédito e consórcios, com condições diferentes das explicadas no início da negociação.
Esse é um dos pontos centrais da investigação.
A polícia trabalha para verificar quantos contratos foram firmados, quanto dinheiro foi efetivamente pago pelas vítimas e de que maneira os valores foram movimentados depois de recebidos.
A investigação já identificou mais de 50 vítimas, mas esse número ainda pode aumentar.
A Polícia Civil continua reunindo informações para descobrir se outras pessoas tiveram prejuízos semelhantes e ainda não procuraram as autoridades.
Também será necessário individualizar a participação de cada um dos sete presos, já que a investigação não atribui necessariamente a mesma função a todos os envolvidos.
A polícia também busca dimensionar o prejuízo financeiro total provocado pelo esquema.
O delegado Ugo Mendonça afirmou que os investigados utilizavam uma forte presença nas redes sociais para oferecer o chamado “crédito fácil”, explorando principalmente o interesse das vítimas em conseguir dinheiro para comprar a casa própria.
Além das prisões, a operação também teve como alvo a estrutura financeira e digital utilizada pelo grupo.
Foram determinados pela Justiça:
| Medida | Quantidade |
|---|---|
| Mandados de prisão | 7 |
| Mandados de busca e apreensão | 11 |
| Veículos sequestrados | 2 |
| Contas bancárias bloqueadas | 6 |
| Site e perfis | Retirados do ar |
Os escritórios utilizados para captar clientes também foram alvo das buscas realizadas em Sinop e Sorriso.
O objetivo dessas medidas é impedir a continuidade das atividades investigadas e preservar bens e recursos que eventualmente possam estar relacionados aos crimes apurados.
A ação recebeu o nome de Operação Carta Contemplada 2 e foi coordenada pela Primeira Delegacia de Polícia de Sinop, com apoio da Delegacia de Polícia de Sorriso.
A investigação começou a partir de denúncias e informações sobre possíveis fraudes praticadas contra clientes que buscavam crédito para adquirir imóveis.
Com o avanço das diligências, os investigadores identificaram uma estrutura que teria funcionado durante anos em mais de um município.
A operação desta quinta-feira foi o resultado dessa apuração.
Com os principais alvos presos, um dos próximos passos da investigação será seguir o caminho dos valores pagos pelas vítimas.
A Polícia Civil pretende identificar:
O rastreamento financeiro também pode ajudar a identificar patrimônio adquirido com os valores investigados.
A polícia ainda apura a existência de outros crimes e novas vítimas relacionados ao esquema.
A quantidade de pessoas envolvidas, a existência de escritórios em duas cidades e a utilização constante de redes sociais são alguns dos elementos que levaram a investigação a apontar uma estrutura organizada.
Segundo os levantamentos, o grupo teria construído uma espécie de operação comercial para atrair consumidores interessados em crédito, apresentar uma promessa de liberação rápida e receber valores de entrada.
Quando o dinheiro não aparecia, as vítimas precisavam procurar novamente os responsáveis para descobrir o que havia acontecido.
É justamente essa sequência que está sendo reconstruída pela Polícia Civil.
O detalhe que antecipou a operação foi a descoberta de que Mariana e Vitor pretendiam sair do país.
Segundo a investigação, eles já tinham passagens compradas para Bariloche, na Argentina.
A viagem levantou a possibilidade de que o casal deixasse o alcance imediato das autoridades brasileiras antes do cumprimento das ordens judiciais.
Por isso, a operação foi antecipada e os dois acabaram presos ainda no aeroporto de Sinop.
A viagem que deveria terminar na neve argentina acabou interrompida antes mesmo da decolagem.
A prisão dos sete investigados não encerra o caso.
A Polícia Civil ainda precisa concluir a análise do material apreendido, rastrear os valores, identificar eventuais novos envolvidos e esclarecer a participação individual de cada suspeito.
Também será necessário confirmar o número final de vítimas e calcular o prejuízo provocado pelas negociações investigadas.
Os presos são investigados pelos crimes apurados e terão suas responsabilidades analisadas durante o processo. A prisão, por si só, não representa condenação.
Para as vítimas, porém, a operação representa a abertura de uma nova etapa: a tentativa de descobrir para onde foi o dinheiro pago, quem estava por trás da estrutura e quantas pessoas podem ter caído na mesma promessa de crédito.
A viagem para Bariloche ficou pelo caminho. Agora, quem continua viajando é a investigação, atrás do dinheiro e de todos os envolvidos.