O turismo acabou

Uma operação internacional terminou nesta quinta-feira (3) com a prisão de João Batista Vieira dos Santos, apontado pela Polícia Civil de Mato Grosso como uma das lideranças de uma organização criminosa que atua no Estado. O investigado estava foragido da Justiça brasileira e foi localizado no Paraguai, utilizando documentação falsa.
A ação contou com participação da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO/Draco), da Gerência de Polinter e Capturas (Gepol), da Polícia Nacional do Paraguai e da Drug Enforcement Administration (DEA), agência antidrogas dos Estados Unidos.
Há uma divergência nas primeiras informações sobre o endereço exato da prisão. Fontes de Mato Grosso citaram Assunção, enquanto autoridades paraguaias informaram que o mandado foi cumprido na cidade de Luque, na região metropolitana da capital, em uma residência da urbanização Alto Pinar.
João Batista, conhecido também pelo apelido “Sandro Louco”, foi encontrado durante o cumprimento de uma ordem de prisão preventiva. No Paraguai, segundo as autoridades locais, ele estaria vivendo há cerca de seis meses e utilizava identidades falsas para evitar ser localizado.

A captura ocorreu no âmbito da operação denominada “Conexão Armadillo”, conduzida pelas autoridades paraguaias com apoio brasileiro e norte-americano.
Os agentes realizaram buscas em uma residência localizada na urbanização Alto Pinar, em Luque. No local, foram encontrados o investigado e materiais que agora deverão ser analisados no curso das investigações.
Entre os itens apreendidos pelas autoridades paraguaias estão cartuchos calibre 9 mm, aparelhos celulares e veículos, incluindo uma Kia Sportage e um automóvel Honda com placa brasileira.
O nome da operação também faz referência ao histórico atribuído ao investigado. Segundo autoridades paraguaias, ele seria especializado na organização de escavações de túneis utilizados em atividades criminosas.
A utilização de identidade falsa não seria uma novidade para o investigado.
Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso, João Batista já havia sido localizado em Pontes e Lacerda, em fevereiro de 2023, utilizando um documento público falsificado.
Agora, novamente escondido fora do Brasil, ele teria recorrido ao mesmo tipo de estratégia para dificultar sua identificação.
No Paraguai, as autoridades afirmam que ele utilizava várias identidades falsas. Uma fonte paraguaia informou que, além do documento usado para se apresentar às autoridades, foram encontrados outros três documentos brasileiros apócrifos.
O histórico investigativo de João Batista também envolve o tráfico de drogas.
Em outubro de 2025, equipes da GCCO/Draco apreenderam quase duas toneladas de maconha em uma chácara vinculada ao investigado. Na ocasião, quatro pessoas foram presas.
A apreensão passou a integrar as investigações sobre a estrutura criminosa atribuída ao grupo e aumentou a pressão sobre João Batista, que já era procurado pelas autoridades.
Ele também é investigado por suposta participação em crimes relacionados ao tráfico e à logística da organização.
João Batista também aparece em investigações sobre roubos a instituições financeiras na modalidade conhecida como “Novo Cangaço”.
O termo é usado para descrever ataques planejados contra bancos ou empresas de valores, geralmente com grupos fortemente armados, veículos e estratégias para dificultar a reação das forças de segurança.
No caso investigado em Mato Grosso, a Polícia Civil aponta o preso como suspeito de participação nesse tipo de ação. A acusação ainda depende da apuração e das decisões judiciais relacionadas aos casos.
Um dos episódios mais conhecidos ligados ao investigado ocorreu em 2022, quando a Polícia Civil apurou a escavação de um túnel de aproximadamente 257 metros em Cuiabá.
A estrutura teria sido aberta a partir de uma residência e avançado em direção à Penitenciária Central do Estado (PCE).
Segundo as investigações, o objetivo seria criar uma rota subterrânea para permitir o resgate de integrantes da facção que estavam presos.
O caso chamou atenção pela extensão da escavação e pelo planejamento necessário para chegar até a unidade prisional sem ser percebido. Autoridades paraguaias também destacaram o histórico de João Batista com escavações clandestinas ao explicar a escolha do nome “Conexão Armadillo”.
Além dos crimes violentos e da logística atribuída a João Batista, a Operação Raspa Brasil investigou a suposta atuação dele na administração financeira da organização criminosa.
De acordo com a Polícia Civil, ele seria responsável pela coordenação estadual do esquema conhecido como “Raspa Brasil Nacional”, ligado à comercialização de raspadinhas.
A investigação apontou que João Batista teria participação na definição de regras financeiras e na expansão da atividade em Mato Grosso. Também teria acompanhado a movimentação dos valores arrecadados e cobrado informações de integrantes envolvidos na distribuição dos bilhetes.
Conforme os levantamentos, o investigado exigia dados sobre os estabelecimentos que participavam do esquema, quantidade de bilhetes distribuídos, valores arrecadados e percentuais destinados à organização.
Monitoramentos também teriam registrado João Batista transportando banners e materiais de divulgação das raspadinhas.
Análises de celulares e comunicações apontaram ainda a realização de videochamadas com outros integrantes, o que, segundo a investigação, indicaria que ele continuava exercendo funções de liderança mesmo durante o período em que estava foragido.
A fuga não teria significado o desaparecimento completo de João Batista.
Segundo as investigações, ele continuou utilizando redes sociais e publicando imagens durante o período em que era procurado.
Em uma publicação feita em fevereiro de 2026, teria aparecido no Rio de Janeiro ao lado de uma mulher que possuía cinco mandados de prisão em aberto. Em outra postagem, surgiu segurando uma arma de fogo com características semelhantes às de um fuzil.
Também foram identificadas publicações relacionadas a atividades físicas, bares e outros momentos da rotina.
Para os investigadores, esse comportamento ajudou a demonstrar que, apesar de estar foragido, João Batista continuava mantendo contatos e atividades relacionadas à organização criminosa.
Outro ponto mencionado pela Polícia Civil envolve processos judiciais nos quais o investigado apresentou laudos e alegações de incapacidade mental.
Segundo a GCCO/Draco, porém, monitoramentos realizados durante as investigações registraram comportamentos que, em tese, seriam incompatíveis com uma incapacidade total.
Os investigadores apontaram que ele participava de videochamadas, transmitia orientações e cobrava outros integrantes da organização.
As informações foram encaminhadas às autoridades competentes para subsidiar pedidos de reavaliação dos elementos apresentados nos processos. A questão ainda depende de análise judicial e não significa, por si só, que os laudos anteriores tenham sido considerados inválidos.
Com a prisão realizada no Paraguai, começam os procedimentos de cooperação internacional para definir as medidas necessárias ao cumprimento das ordens judiciais existentes no Brasil.
Autoridades paraguaias informaram que o detido permanecerá à disposição da Justiça enquanto são definidos os procedimentos relacionados à sua situação no país. Há possibilidade de tramitação para expulsão ou extradição, conforme as decisões das autoridades competentes.
O caso reúne investigações de diferentes frentes: tráfico de drogas, ataques a instituições financeiras, organização criminosa, suposta administração financeira da facção e o projeto de túnel em direção à PCE.
Agora, depois de anos sendo procurado e de cruzar a fronteira utilizando identidades falsas, João Batista foi localizado justamente em uma operação que reuniu autoridades de Mato Grosso, Paraguai e Estados Unidos.
A fuga internacional chegou ao fim, mas a longa lista de investigações ainda deverá seguir seu caminho na Justiça.