O cupido do spray

Uma pichação política ganhou um final inesperadamente romântico e terminou em abordagem policial em Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá. Um professor de 58 anos foi flagrado por policiais militares do Grupo de Apoio (GAP) enquanto escrevia em um muro a frase “roubou meu coração” logo abaixo de uma mensagem que já dizia “Lula é ladrão”.
O caso aconteceu na quarta-feira (26), durante uma ronda policial, e o momento foi registrado em vídeo pelo sargento Dias, da Polícia Militar. Nas imagens, o professor explica aos policiais que encontrou o muro já pichado, comprou uma lata de spray e decidiu completar a mensagem com sua própria “contribuição artística”.
O resultado transformou uma acusação política em algo que parecia mais uma declaração de amor completamente fora de contexto.
A primeira frase já estava escrita na parede quando o professor decidiu acrescentar, em tinta vermelha, “roubou meu coração”. O autor da pichação original não foi identificado.
A criatividade, porém, chamou a atenção da equipe do GAP, que abordou o homem enquanto ele ainda estava no local.
Durante a conversa, o professor teria explicado que comprou o spray justamente para escrever a segunda frase depois de encontrar a mensagem contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no muro.
O policial responsável pela abordagem então explicou que, independentemente do conteúdo político da mensagem, pichar uma edificação sem autorização pode configurar crime.
E aí veio o momento mais curioso da ocorrência: em vez de transformar o episódio em uma discussão maior, o professor se comprometeu a voltar ao imóvel no dia seguinte, comprar tinta branca e apagar a própria obra.
Segundo o relato divulgado sobre o caso, após assumir esse compromisso, ele foi liberado.
A frase criada pelo professor acabou dando um novo significado à pichação original.
Em vez de simplesmente repetir o “Lula é ladrão”, ele acrescentou uma segunda linha que mudou completamente a leitura:
“Lula é ladrão”
“roubou meu coração”
O resultado parece mais uma cantada política do que uma manifestação partidária.
Não há informação de que o professor conhecesse o autor da primeira pichação ou que tivesse qualquer relação com o imóvel. Também não foi identificado quem escreveu a mensagem original.
O curioso é que a abordagem não ocorreu porque o professor estava protestando contra ou a favor de Lula, mas por estar pichando um muro.
Pode.
O artigo 65 da Lei nº 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais, estabelece que pichar ou, por outro meio, conspurcar edificação ou monumento urbano é crime, com previsão de detenção de três meses a um ano e multa. A legislação diferencia a pichação do grafite autorizado, que pode não configurar crime quando realizado com finalidade artística e mediante o consentimento exigido pela lei.
Ou seja, o fato de um muro já estar pichado não significa que outra pessoa esteja autorizada a acrescentar mais tinta.
No caso registrado em Várzea Grande, o professor teria utilizado um spray para modificar uma estrutura que já apresentava uma mensagem, sem que houvesse informação de autorização do proprietário.
A situação, entretanto, terminou sem uma prisão divulgada, depois que ele se comprometeu a retornar e reparar o que havia feito.
A ocorrência também chama atenção pelo conteúdo da pichação.
A frase original fazia uma acusação política contra Lula. Já a intervenção do professor transformou a mensagem em uma espécie de declaração de amor, criando uma combinação inusitada que rapidamente chamou atenção nas redes sociais.
O episódio mostra como uma mesma frase pode ganhar interpretações completamente diferentes dependendo de uma linha acrescentada logo abaixo.
Mas, para a polícia, o detalhe romântico não muda a questão principal: continuava sendo uma pichação.
O vídeo da abordagem mostra justamente a conversa entre o professor e o militar, que explica a irregularidade e cobra uma solução para o muro.
No final, ficou combinado que a parede receberia tinta branca e a “obra” seria apagada.
Veja o vídeo da abordagem: