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O crachá é PL, o boné é PT.

Secretária de prefeita do PL usa boné do PT em ato de Fávaro e diz: “Sou uma técnica”

A secretária municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Várzea Grande, Maria Fernanda Figueiredo, resolveu colocar uma dose de confusão ideológica no cenário eleitoral de Mato Grosso. Nomeada pela prefeita Flávia Moretti (PL), a gestora apareceu em um ato de campanha do senador Carlos Fávaro (PSD) usando um boné com a identificação do PT, além de adesivo e bandeira da chapa.

A cena foi registrada durante o lançamento da candidatura de Fávaro à reeleição ao Senado, realizado no domingo (16), no Contorno Leste, em Cuiabá. O evento reuniu candidatos, lideranças e militantes do grupo político que apoia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Estado.

O detalhe chamou atenção justamente porque Maria Fernanda ocupa um cargo de primeiro escalão em uma prefeitura comandada por uma prefeita do Partido Liberal, legenda que está do outro lado do atual confronto político nacional.

Questionada nesta quinta-feira (27) sobre a participação no evento e o uso do boné petista, Maria Fernanda afirmou que não vê contradição entre sua posição política pessoal e o trabalho que desempenha na administração municipal.

“Quando eu estou na minha vida, eu sou Maria Fernanda. Lá na Secretaria de Educação, eu sou a secretária de Educação, e aí você pode ter certeza que lá eu exerço o meu papel, respeitando os meus limites”, declarou.

Segundo a secretária, suas convicções políticas existem antes de sua nomeação e não são levadas para dentro da estrutura da Prefeitura.

“Eu não estou levando uma bandeira para dentro de uma secretaria, mas as minhas convicções, elas existem antes da secretaria na minha vida”, afirmou.

E completou com uma frase que acabou resumindo sua defesa:

“Eu sou uma técnica.”

Boné do PT em uma gestão do PL

A repercussão veio justamente do contraste.

Maria Fernanda foi nomeada por Flávia Moretti em março deste ano para comandar uma das principais secretarias do município. Documentos oficiais da Prefeitura confirmam que ela exerce o cargo de secretária Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer.

No evento de Fávaro, porém, ela apareceu integrada à militância. Além do boné do PT, segurou uma bandeira e utilizou material relacionado à campanha do senador. O registro chegou a mostrar a própria secretária apontando para o boné enquanto era filmada.

A situação naturalmente chamou atenção porque Fávaro e Flávia estão em campos políticos diferentes.

Fávaro lançou sua candidatura em um ato que consolidou o palanque de apoio a Lula em Mato Grosso. A frente política reúne PSD, PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede.

Flávia Moretti, por sua vez, foi eleita pelo PL e mantém posicionamento alinhado ao campo bolsonarista. Em julho, inclusive, afirmou que pretendia discutir com sua base política qual candidato ao Governo apoiaria em 2026.

A presença de uma integrante do primeiro escalão municipal em um palanque adversário, portanto, ganhou um peso político que provavelmente não teria caso Maria Fernanda fosse apenas uma apoiadora sem cargo público.

“Minha vida pessoal diz respeito apenas a mim”

Em sua explicação, a secretária fez questão de separar os dois lados da vida.

De acordo com Maria Fernanda, existe a Maria Fernanda pessoa física, com suas próprias convicções e preferências políticas, e a Maria Fernanda secretária, que precisa cumprir as responsabilidades institucionais do cargo.

“A Flávia é uma mulher admirável por isso, ela respeita o individual de cada um”, disse a secretária, defendendo que a prefeita não interfere nas escolhas pessoais dos integrantes de sua equipe.

Na avaliação dela, o fato de ocupar uma secretaria não significa abandonar as opiniões que tinha antes de entrar no governo.

“Eu tenho uma vida, eu tenho os meus princípios, e aí é algo individual de cada um e a Flávia respeita muito individual de cada um”, afirmou.

A declaração segue a mesma linha adotada desde que as imagens do evento começaram a circular: a secretária sustenta que não representava institucionalmente a Prefeitura de Várzea Grande no ato político.

Fávaro está no palanque de Lula

A escolha do evento também não foi aleatória.

Carlos Fávaro lançou oficialmente sua candidatura à reeleição ao Senado no dia 16 de agosto, em Cuiabá, ao lado de nomes que compõem a frente política de centro-esquerda no Estado. O ato ocorreu no Contorno Leste e reuniu militantes, candidatos e lideranças partidárias.

O grupo anunciou ainda a intenção de receber Lula em Mato Grosso em setembro para um ato eleitoral de apoio à coligação “Mato Grosso para Todos”.

É dentro desse cenário que o boné de Maria Fernanda ganhou tanta repercussão.

Ela não apenas esteve presente como espectadora. Os registros mostram a secretária participando do ato junto à militância, com símbolos da campanha.

Secretária não escondeu a posição

Ao ser questionada sobre a situação, Maria Fernanda não tentou minimizar sua presença.

Pelo contrário, explicou que considera legítimo ter uma posição política diferente daquela defendida pela administração da qual faz parte.

“Uma das coisas que eu mais admiro na Flávia é o respeito à democracia”, afirmou.

A declaração também serve como resposta indireta a quem questionou se a participação poderia representar algum problema para sua permanência na administração.

Na visão da secretária, enquanto as opiniões políticas ficam no campo pessoal e a atuação da pasta permanece dentro das atribuições institucionais, não existiria conflito entre as duas coisas.

 

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E o boné?

A polêmica começou justamente porque o boné não era exatamente discreto.

Não se tratava apenas de Maria Fernanda estar no evento. Ela apareceu usando um acessório com a identificação do Partido dos Trabalhadores, além de outros símbolos da campanha.

Em registros compartilhados nas redes sociais, a secretária aparece inclusive apontando para o boné enquanto participa do ato.

Foi essa imagem que provocou a repercussão política.

A cena produziu aquele tipo de situação que rende conversa em qualquer grupo de WhatsApp político de Mato Grosso: uma secretária nomeada pelo PL, no palanque de um candidato apoiado por Lula, usando boné do PT.

Mas, para Maria Fernanda, a explicação é simples: política pessoal de um lado, gestão pública do outro.

Quem é Maria Fernanda?

Maria Fernanda Figueiredo assumiu a Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Várzea Grande em 13 de março de 2026, substituindo Igor Cunha.

Segundo informações divulgadas na ocasião de sua nomeação, ela é educadora efetiva do município há 23 anos, professora da rede pública e privada e possui pós-graduação em Educação Infantil e Gestão Escolar. Também é pesquisadora associada à UFMT e já atuou em funções ligadas à gestão de programas e projetos.

Sua trajetória profissional também inclui atuação no Instituto Federal e na Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt), segundo a publicação sobre sua nomeação.

A nomeação, portanto, ocorreu pelo perfil técnico e pela experiência na área educacional.

É justamente esse histórico que Maria Fernanda utiliza agora para reforçar o argumento de que sua atuação como secretária não deve ser confundida com sua vida partidária ou suas opiniões pessoais.

O episódio também reacendeu o debate dentro da política de VG

O caso acontece em um momento em que a política de Várzea Grande está particularmente movimentada.

A prefeita Flávia Moretti já declarou que pretende conversar com vereadores, secretários e lideranças antes de definir o posicionamento de sua base para a disputa estadual.

Ao mesmo tempo, nomes ligados à administração municipal vêm aparecendo em diferentes grupos políticos durante a formação dos palanques de 2026.

A participação de Maria Fernanda em um ato de Fávaro colocou esse cenário em evidência.

E ela não foi a única pessoa ligada à política várzea-grandense presente no evento. Registros e reportagens também citaram a participação de seu irmão, Carlinhos Figueiredo, e do vereador Charles da Educação.

É proibido um secretário apoiar outro grupo político?

A simples existência de uma preferência política pessoal não significa, por si só, que um servidor ou ocupante de cargo público esteja proibido de ter opinião política.

A questão pode ficar mais delicada quando existe uso da estrutura pública, recursos públicos, instalações oficiais, horário de expediente ou utilização do cargo para promover candidatura, situações que possuem regras próprias no período eleitoral.

No caso específico apresentado nas informações públicas, Maria Fernanda afirma que participou do evento em sua esfera pessoal e que não levou a campanha para dentro da secretaria.

Até o momento, não há informação pública de que a Secretaria Municipal de Educação tenha sido utilizada para promoção do evento ou que recursos públicos tenham sido empregados na participação dela.

Essa distinção é importante para não transformar uma fotografia política em uma conclusão jurídica que as informações disponíveis não sustentam.

No fim, cada um com sua bandeira

O episódio deixa uma situação curiosa dentro da Prefeitura de Várzea Grande.

A prefeita está em uma legenda, sua secretária aparece em um palanque de outra corrente política, e a própria secretária garante que consegue separar perfeitamente as duas coisas.

Maria Fernanda não parece disposta a esconder suas convicções. Ao contrário: afirma que elas existiam antes do cargo e continuarão existindo independentemente dele.

A mensagem que ela quis deixar foi bastante clara:

quando está na secretaria, ela é secretária; fora dela, é Maria Fernanda.

E, pelo visto, Maria Fernanda do lado de fora da secretaria não teve problema nenhum em colocar o boné.